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Observações de Becken sobre as lágrimas amarelas

As lágrimas dela eram amarelas. Isso mesmo. Um amarelo transparente, desmaiado, nada compacto. Não era paracetamol. Eram lágrimas levemente amareladas. Não eram comuns, da cor d'água, escorrendo pelo rosto e engolindo a poeira da pele. Eu sei que ela havia lavado o rosto há pouco tempo. Porque já havia chorado muito antes e trazia os globos oculares plenos de veias finas vermelhas. Chorava sempre escondida. Eu achava que era vergonha de menina que não deseja ser vista em mais um de seus inúmeros momentos de fraqueza. Na verdade, ela tinha era medo. Muito medo toda vez que entrava no pranto compulsivo com caretas de teatro grego. Até babava de tanto drama. Ela demonstrava receio de alguém descobrir que sua lágrima era amarela. E eu sempre imagino se tem gosto de abacaxi, ou de paracetamol. Mas não é amarelo-vivo, que nem o sol, o açafrão ou o ouro. Ela não gotejava ouro. Era tola demais para isso. Mas que é um mistério, isso não podemos negar. Não foi reflexo ou jogo de luz. Não foi uma ilusão de ótica. A cor era encardida. Nada de transparência. Levemente gema. Parecia água escorrendo e passando sobre uma superfície cheia de poeira de estrada de terra. Eu vi de longe, bem escondida mesmo. Porque se ela notasse a minha observação, ela não choraria à vontade. Esconderia o rosto. Por muitas noites procurei seu travesseiro para verificar as manchas grudadas na fronha. Um roda amarelada de lágrimas noturnas. Mas nunca encontrei o tal travesseiro. Ainda não contei a ninguém sobre minhas investigações. Acho que ninguém acreditaria nelas. Ao menos se eu a pedisse para chorar na frente do outro. Mas aí seria um duplo desastre. Ela descobriria que já a vi chorando lágrimas amarelas. Ninguém chora na frente de outra pessoa só para demonstrar alguma coisa. Chorar envolve sentimentos profundos. Ou, talvez, órgãos profundos. Suas lágrimas poderiam vir do fígado. O fígado é um órgão intimamente ligado às nossas tristezas e aflições. A lágrima amarela deveria ser fruto de suas agonias hepáticas.
Quem sabe um dia as lágrimas dela voltem ao normal. Ou sempre foram normais, e as nossas não. Ainda não pretendo contar a ninguém. Continuarei com mais dois meses de observação. Não sei se conseguirei registrá-las em fotos. Por enquanto farei tudo às escondidas. Hoje à noite tentarei recolher alguns de seus objetos pessoais. O travesseiro, sobretudo. Motivos para chorar diariamente, ela tem. Se não os tiver, eu os arrumo. Sim, ela chora lágrimas amarelas. Deve ser a primeira e única em todo o mundo. Eu sigo dizendo que nunca havia visto isso. Ela anda muito mal por esses dias. Não sei se do fígado, das agonias, das lágrimas estranhas ou da sensação de ser observada.

Catarina Becken - 18 de outubro de 1992.

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