Pular para o conteúdo principal

Quatro impressões ou sobre como as estações estão dentro de nós

Primavera

Sobre as flores
Diremos
As favoritas
Sobre as flores colocaremos
Nossas mãos
Malditas
Lembraremos os mortos
Sorrisos
Festas
Despedidas
Ventos quentes anunciadores
Abelhas aos montes
Sobre as flores
Faremos coroas
De diversas interpretações
Amarelas, brancas
Rosas, bem rosas
Mais abelhas
Dirão
Flores
O que há além.

Verão

Verão
No calor das pedras
As andorinhas que não se foram
Nos buracos de seus ninhos
Uma cidade inteira de carros
E depressão
Verão
Todos os dias
Folhas jovens e duras
Lavadas em horas marcadas
Perdidas, tão certas
Esverdeadas
Todos os dias
Andorinhas
Fazendo ninhos de impressão
Pedras urbanas
Testemunhas do tempo
Que passou tão rápido
Presságio
Verão.

Outono

Outono
Outra estação
Dias mornos
Dias açucarados
Ventos dobrados
Cortam folhas
Chá de hortelã
Calmaria no mar
E na esquina
E no coração
Trovão
Foi-se com a chuva
Terra seca com flores
Chá de amores
Amoras
Maçãs
Outras folhas
Outra canção
Outono
Mais uma vez
Outra estação.

Inverno

Eu prometi cheirar o jasmim
Espalhado, todo lilás
Bem lá no meio do jardim
Quando há névoa
Orvalho congelado
Ele sempre sorri para mim
Com um ar misterioso
Exalando perfume inquieto
Roxo
De longe eu prometi
De novo, um dia
Cheirar o jasmim
Com minha xícara apertada entre os dedos
Creio que ele está triste
Folhas, muitas folhas
Inibido entre todas
As terras do jardim
Calou-se o jasmim
Agora é a sua estação
Que jasmim na contramão!
Apareça, era tão certo
Ainda espero por você
Ainda é tão escuro
Ainda é inverno.

*'Verão', 'Outono' e 'Inverno' são poemas já publicados no blog. 'Primavera' é inédito.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...