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Cinco minutos

Laudi é uma chata e sempre insiste em me acompanhar pelas ruas quando estou voltado para casa, depois de uma caminhada pelo parque. Faço de tudo para que não me veja, mas seus olhos de lince são únicos. Têm visão de raio-x. Laudi não tem noção nenhuma do correr do tempo. Eu sim, pois uso relógio de pulso desde os oito anos de idade. Primeiro, usei um digital porque era mais fácil. Depois ganhei um com algarismos arábicos, com o qual custei me acostumar. Logo em seguida, exigi um com algarismos romanos. Ninguém sabe algarismos romanos hoje em dia. É como se o relógio marcasse as horas em códigos. Gosto de saber o que quase ninguém entende. Laudi não sai de casa sequer com o celular. Uma vez a perguntei sobre onde ficava o Parque das Castanheiras. Ela me indicou as ruas e disse que eram vinte minutos de caminhada até chegar lá. A indicação das ruas estava correta, mas levei cinquenta minutos para avistar a primeira árvore do parque. Aquilo me irritou profundamente e meu ódio por Laudi crescera desde então, com uma força de furacão. Não suporto quem não leva a noção de tempo consigo e que não faz esforço nenhum para aprender. Dez minutos no relógio significam que você tomará um banho rápido. E que provavelmente não terá tempo de lavar o cabelo com calma.
Cumprimento Laudi com aquela cara de "não estou a fim de conversar com você". Mas Laudi não se importa. Conversa assim mesmo. Fala sobre umas revistas de artesanato que andou comprando. Sobre a possibilidade de fazer a decoração de aniversário de uma sobrinha, cujo tema será umas bonecas encapotadas em um cenário cheio de bonecos de neve. Cada detalhe congelado da festa me foi revelado. Melhor assim, pois não tenho a necessidade de dizer nada. A preguiça entranhou em meu ser ao entrar em contato com Laudi.
Passamos diante de uma padaria. O cheiro de café é inebriante. Laudi me convida para entrar e tomar um cafezinho. Recuso, sem dar explicações. Laudi insiste e diz que serão apenas cinco minutos. Coisa rápida. Decido tomar o café não pelo café ou pela companhia da chata. É para comprovar, mais uma vez, o desleixo que Laudi tem com a falta de noção do tempo. Sentamos em um banquinho diante do balcão extenso. O banco é uma haste de metal, fincada no chão, que termina em um disco de plástico. Não gosto desses bancos. Sempre imagino que o metal pode se romper na base e que cairei de costas no meio do estabelecimento. Tento esquecer a possibilidade da queda e peço um expresso. Laudi pede café com leite e pão na chapa. Nesse momento, já penso que é impossível entrar em uma padaria, fazer o pedido de algo para comer e beber, receber o pedido, comer e beber (neste caso, com calma, pois estará tudo quente), pegar a nota e pagar em apenas cinco minutos. Claro que "cinco minutos" pode ser uma expressão para substituir o "vai ser rápido". Também não sou tola para levar tudo ao pé da letra. Mas o que quero dizer é que não, não será rápido. Isso será coisa de pelo menos vinte minutos. E claro que Laudi levará muito mais tempo. Falando das bonecas congeladas enquanto comia, Laudi, claro, esqueceu-se da noção de tempo. Cinco minutos viraram cinquenta. Minha xícara vazia do expresso há muito já havia sido recolhida. Comprovada mais uma vez a falta de noção de Laudi sobre os ponteiros de um relógio, estava aflita para ir para casa e não vê-la por um bom tempo. Ela mora um quarteirão depois do meu. Sua companhia será inevitável até a minha casa.
O assunto sobre a festa da sobrinha terminou. "Oh, Glória!", pensei. Mas antes que chegássemos em frente ao prédio onde moro, Laudi quis parar em uma banca para ver mais revistas de decoração de aniversários. Seria rápido. Coisa de cinco minutos. Fiquei do lado de fora, observando-a. Dizer "cinco minutos" era a mania do momento de Laudi. Mania de quem não sabe administrar o que faz. Vejo-a perdida entre páginas e páginas de publicações de revistas. Não serão cinco minutos, ou dez, ou quinze. Serão mais uns cinquenta. Arredondando o tempo gasto ao lado de Laudi, a soma daria quase duas horas. Duas horas perdidas ao lado de uma pessoa chata, que não pretendo ver tão cedo na minha frente. Talvez em pouco tempo a encontre outra vez, por sermos vizinhas de quarteirão. Não pensei duas vezes. Fui para casa sem a companhia de Laudi. Perdida na banca, ela nem notaria minha ausência. Calculei que dali até em casa gastaria dois minutos. Ao girar a chave na porta verifico que acertei mais uma vez em minha precisão. Meus algarismos romanos nunca falham.

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