Jânio saiu para comprar um liquidificador em
uma manhã quente de sábado de fevereiro. Quando entrou na loja, veio uma
vendedora morena, muito bonita, dizendo-lhe bom dia. De cara percebeu que ela
tinha um piercing no dente. Pequenininho e brilhante. Coisa de moças modernas.
Devia ter uns 25 anos, no muito. A calça jeans clara, grudada no corpo, dava à
mostra um traseiro redondo e empinado. Tinha seios grandes também. A observação
de Jânio parou por aí porque tinha que responder o bom dia e perguntar pelo
liquidificador. O mais em conta da loja, se fosse possível. Ela sorriu dizendo
que traria um da promoção. Virou-se de costas e Jânio a observou mais. Para
ele, não tinha esse negócio de “podia ser minha filha”. Mulher bonita era para
ser olhada mesmo. Ainda mais com uma calça daquelas colada no corpo. Num corpo
de pele morena. Cabelos pretos lisos, com uma franjinha caindo no olhar de
ressaca da sexta-feira. Ela explicava sobre a forma de pagamento do
liquidificador equilibrando o chiclete sobre a língua. Jânio não escutava nada,
hipnotizado pela voz mansa que saía da boca pequena. Disse que pagaria à vista
porque estava baratinho. Baratinho mesmo. Tinha que pagar a mercadoria no
caixa, mas não queria sair de perto dela. Sua morenice era atraente. Perguntou-lhe
o nome. Carla, ela respondeu. Jânio gravou bem. Andava fraco de memória. Não
podia esquecer. Carla, Carla, Carla. Talvez voltasse para comprar um ferro de
passar. Bem barato, baratinho mesmo. Não estava precisando de um. Era para ver Carla
outra vez. Lá da fila do caixa, ele ainda a observou atender os outros
clientes. Mastigando chiclete. Rebolando o traseiro pela loja. Jânio era taxista,
mas tinha sido atleta por um bom tempo. Participou de muitas corridas de rua e
ganhou algumas medalhas. Nem sabia mais onde estavam guardadas. Era magro e
tinha o braço esquerdo todo tatuado. Tatuagens meio verdes, do tempo que
passou. Do tempo que passa e traz a vida com outro rosto. Irreconhecível. Pagou
a compra no caixa e pegou a mercadoria. Nem lembrava mais a marca do
liquidificador. Mas o nome de Carla ele não esqueceu. Ao sair da loja ainda a
procurou para acenar um adeusinho. Ela respondeu com a franjinha caída no olho
direito. Fevereiro é um mês quente e Jânio queria chegar logo em casa. O carro
estava na oficina mecânica. Uma viagem de ônibus de trinta minutos pareceu ser
de cinquenta. Abriu a porta do apartamento e nem tirou o liquidificador da
sacola plástica. Foi direto pro banheiro. Carla.
Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...
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