Há dias que são intermináveis para ela que anda dormindo tão mal. Não são problemas que atravessam o caminho. São dias que parecem estar meio do avesso. Hoje ouviu a campainha tocar duas vezes. Debruçou-se na janela e viu que não era ninguém. Durante o banho, o telefone tocara, mas não conseguiu identificar a chamada perdida. Porque não havia chamada. Havia cansaço e delírio. Passou o dia outra vez sem conversar com ninguém porque temia contrariedades sobre o que andava fazendo. Mas ela não andava fazendo quase nada. Apenas esperava. Um retorno, uma música favorita na rádio, uma fruta que não apodrecesse tão depressa, uma meia que não sumisse na gaveta, um pássaro que cantasse na janela, uma chuva forte repentina, o conserto mágico de seu guarda-chuva predileto. Até a leitura final do seu livro de cabeceira. O livro era bom, mas dormia depois das duas primeiras páginas. Se o livro era bom, como conseguia dormir? Onde estava a magia dos olhos abertos e atentos sobre personagens, tramas e paisagens? Todos conseguiam e ela não. Sobre muitas coisas. Odiava o nome de nascença, mas não vinha nenhum outro à mente para substituí-lo sem soar nome de guerra que ressoa em calçadas mundanas.
Às vezes o que queria era isso. Perder-se em uma calçada mundana. Para não ouvir mais campainhas fictícias. Que dão medo. Que anunciam notícias. Que anunciam que o outono chegou e que a chuva fina insistirá nos próximos dias. E ela sem poder sair com seu guarda-chuva tão estimado que ganhara aos dezoito anos de uma amiga que sumira no mundo. Essa sim deve estar em calçadas mundanas, pensava. Ao mesmo tempo, a definição de calçada mundana ia se confundindo com tantas outras definições estereotipadas que já caíram em sua vida. Cara, corpo, cabelo, roupa, sapato podem dizer tudo ou nada de alguém. Todos se escondem de alguma forma. Se não é em casa, é dentro de si mesmo. Ela não sabia onde se escondia. E nem que se escondia.
Deitada sobre o tapete marrom empoeirado da sala, pensava em traçar novas estratégias de vida. Pensava muito em sua amiga Olívia que um dia juntou tudo o que tinha em uma mala e foi viver no exterior. Num lugar distante onde não neva mas chove sempre. Não se lembrava do nome do lugar. Passou a tarde imaginando a vida em muitos países ao redor do mundo. Não decidiu em qual viver. Trocar de país dá trabalho. E para quem se esconde dentro de si mesmo, dá no mesmo. Nesse dia, a campainha não tocou. Nenhuma conclusão lhe tocou profundamente. Ficou no mesmo lugar por horas. A vida estava no mesmo lugar há anos.
Noites mal dormidas e dias mal vividos. Escolhe mentalmente amigos com os quais pode sair no fim de semana. A chuva fina lá fora deve insistir pelos próximos dias. Desanima. Não é pelo guarda-chuva favorito estragado. É por imaginar mais um fim de semana em que nada mágico acontecerá. E assim esperava. A música predileta na rádio, a fruta que não apodrecesse tão rápido, a reprodução da obra de seu pintor favorito que podia estar emoldurada na parece, os cinzeiros limpos, as compras feitas sem contar tanto assim as moedas, uma tinta nova no cabelo, um mundo novo pintado de cores fortes, a calçada mundana cada vez mais perto, a chuva de outro país caindo sobre este mesmo país. Porque mudar dá trabalho. Limpar o tapete marrom empoeirado também.
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