Pular para o conteúdo principal

Telêmaco e a morte

Chegou em casa e caiu pesadamente no sofá. O enterro havia sido às quatro da tarde, sob um sol forte de verão. Telêmaco pôs-se a pensar sobre a morte, trazendo ainda a camisa cinza encharcada nas axilas e nas costas. A morte é um mistério. A morte é um saco. A morte leva e não traz de volta. Cala-se a voz do morto. Calam-se suas gargalhadas. Telêmaco nem nota que o suor já impregnou todo o sofá, que ainda nem foi pago.
No dia seguinte, o sol nascerá, a despeito de tudo. Os carros continuarão rodando, buzinando, fazendo arruaças à noite. Os cães continuarão ladrando. As goteiras posteriores às chuvas de verão continuarão com seus estragos. Alguém precisará cozinhar. Alguém precisará comer. O relógio não dará pausa para a saudade. Para chorar a ausência do morto. Os dias continuam. E continuarão assim quando for a vez de Telêmaco.
Telêmaco imagina o seu túmulo, a lápide com seu nome, a garoa caindo sobre o concreto em dia de Finados. Não consegue visualizar a família chorando por ele. Vê apenas os objetos, não as pessoas. Quando há pessoas na mente, as lágrimas brotam fáceis. E ele está cansado de prender o choro nas mandíbulas cerradas. Fez isso isso durante toda a manhã e toda a tarde. Queria ter rezado pelo morto, mas não conseguiu. Um turbilhão de sentimentos. Um turbilhão de lembranças. A morte chama todas as atenções para ela. Pede passagem com sua naftalina. Arrepio na espinha.
Telêmaco se desencosta do sofá e a camisa está grudada no corpo. Não sairá dessa posição pelas duas horas que se seguirão a esta. Está petrificado pelo tempo presente, tão inundado de passado. Não resolverá nada agindo assim, mas não tem força para nada mais objetivo. A morte sempre remexe no coração. Bagunça a ordem das coisas, trazendo à tona o que já estava encaixotado. Ficará estranho pelos próximo seis meses. Ou pelo menos três. Mas o luto de verdade, aquele que nos faz pensar na vida e seus profundos sinais e significados, durará por uns três anos. Depois disso, as lembranças doerão menos. Mas virão. Do nada. E quando Telêmaco se sentir mais forte e seguro em relação a essa determinada partida, um próximo funeral provavelmente acontecerá. Pessoas morrem todos os dias e as coroas de flores são lucro certo para quem as confecciona.
Ele se levanta e decide tomar um banho. Roupas de cemitério devem ser separadas e esterilizadas. A cabeça pesada e pensativa seguirá com seus micróbios. No sofá, ficou a marca do suor de Telêmaco. No coração de Telêmaco, ficou a marca de mais uma partida de alguém que se ama. Na lápide do morto, ficou a marca do sussurro de Telêmaco, com sua promessa de "um dia nos veremos de novo".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Cacos de ampulheta

  O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua s...