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Fui egoísta em Buenos Aires

Pietra estava nervosa e caminhava de um jeito muito estranho naquela manhã. Parecia querer confessar algo ou pedir alguma opinião sobre um assunto grave. Eu estava muito cansado e preferi não tocar nesse assunto porque as respostas poderiam ser difíceis. Saímos de um hotel três estrelas na Calle Paraguay e caminhamos pela rua estreita e comprida com as mãos enfiadas nos bolsos dos casacos. Buenos Aires é fria quando amanhece em outubro, apesar da presença de um sol brilhante. A Calle Florida estava bem próxima, e lá caminharíamos mais ainda, observando lojas e pessoas com seus pulôveres. Desviávamos de muitos vendedores de show de tango e anunciantes de lojas de couro. Eles começam cedo. Adivinhavam minha cara de turista, mesmo ao lado de uma argentina típica, de cabelos lisos e negros. Pietra estava mais séria que o normal.
Naquele dia, havíamos combinado de conhecer a Casa Rosada, sede do governo. Dizem que sua pintura rosa vem da mistura de cal e sangue de boi. Há muitos mitos sobre o tema. Pela manhã, em uma época que não era de férias para ninguém, entramos sem enfrentar muitas filas. A visita era feita por grupos limitados. Vimos obras de arte e muitas salas com móveis refinados. Em cada uma delas, guardas nos olhavam atentos. Talvez achassem que eu pudesse esconder no bolso um dos lindos vasos gigantes de porcelana ou uma das cadeiras estofadas com veludo vermelho. Gostei muito de um relógio enorme em uma sala que parecia de reuniões. As mesas de madeira escura pareciam um espelho refletindo nossas almas. Não vi a alma de Pietra refletida em nenhuma delas. Estava calada e compenetrada. Também não gosto de conversar pela manhã. E assim terminamos o percurso de apresentação de inúmeras salas com mesas límpidas, cadeiras luxuosas, quadros instigadores e tapetes incrivelmente sedosos.
Sou amigo de Pietra desde 2007, quando fui estudar espanhol por um mês em Buenos Aires. Precisava de um diploma como esses, à época de meu antigo emprego. Pietra era uma das professoras do nível intermediário, o qual estudei, achando que poderia estar tranquilamente no nível avançado. O curso acabou, mas a amizade permanecera. Aquela era a terceira vez que voltava a Buenos Aires. Muitas pessoas imaginavam que tínhamos um "algo a mais", um romance de viagem, namoricos passageiros. Nunca tivemos nada. Apenas muita consideração um pelo outro. Pietra nunca veio ao meu país, apesar de sua enorme vontade.
Um dia antes da visita à Casa Rosada, fomos à noite a um bar perto do hotel chamado Jazz, em uma rua cheia de casas noturnas. Muitas tinham a porta fechada, com um segurança do lado de fora e uma música ensurdecedora vinda de dentro. Imaginei em várias ocasiões o que poderia haver nessas discotecas e que tipo de pessoas as frequentavam. Estávamos cansados e jantamos algo bem simples: arroz e bife à parmegiana. Nunca me acostumei com o arroz sem sal argentino. Mas era algo rápido para ser pedido e consumido, depois de um dia de muitas caminhadas. Tomamos refrigerante e conversamos sobre muitas coisas, sobre como estavam nossas vidas. Pietra às vezes me olhava meio diferente, como se quisesse dizer algo que eu não estava esperando. Fez isso três vezes, e fiquei intrigado. Não fiz perguntas sobre isso. Estava cansado e queria voltar logo para o hotel. Minhas pálpebras estavam pesadas. Lembro de voltar com ela outras vezes no Jazz, porque era a apenas uns cinquenta metros do hotel de três estrelas onde estava hospedado. O garçom se chamava Carlos, e não podia me esquecer de dar-lhe gorjeta. Em Buenos Aires, damos contribuições ou gorjetas pra quase tudo. Lembro-me de ir a uma casa de shows de tango e ter do lado de dentro do banheiro um senhor que abria e fechava a porta para os frequentadores. Uma gentileza que custaria moedas. Voltando à saída do Jazz, não me lembro se Pietra estava mudada, como na manhã em que visitamos a Casa Rosada. Só sei que eu estava muito cansado. Naquele dia, ela ficou assim, muito enigmática. Com algo entalado nas cordas vocais. Eu, querendo fugir de complicações, acabei não perguntando nada, como já expliquei. Minha passagem por Buenos Aires foi rápida daquela vez. Conheci um lugar ainda inédito para mim, o Cemitério da Recoleta, cheio de mausoléus, alguns mais refinados do que muitas moradias. Pequenos palácios de mármore, granito ou outro material, sendo o mais famoso deles o de Evita Perón. Queria vê-lo e tirar uma foto em frente à sua porta. Lá estava ele, todo negro, com o sobrenome Duarte sobre a entrada. Pietra tirou a foto pra mim com rapidez, porque havia muita gente ao nosso lado querendo fazer o mesmo. Ir ao Cemitério da Recoleta e não visitar o mausoléu de Evita significa não ter ido ao cemitério. Lá, ouvi uma história de um homem rico que planejou um caixão com uma campainha em seu interior. Caso ele fosse enterrado vivo, e sabemos que isso pode acontecer, apertaria a campainha, cujo som sairia em um alto-falante potente, no alto do mausoléu. Todos os anos, ele reunia a família para mostrar a eficácia da engenhoca. Dizem que após o seu falecimento, o som nunca fora ouvido nas redondezas.
Na visita ao cemitério, Pietra estava mais sorridente, sem aquele peso estranho no rosto. No dia seguinte, eu voltaria ao Brasil. Como meu voo era na madrugada, Pietra e eu nos despedimos na escadaria do hotel. Abraçando-a, disse que gostei muito da companhia dela e que nossos passeios e conversas foram muito agradáveis. Antes de ir embora, Pietra me entregou um papel dobrado, dizendo que eu só poderia lê-lo depois que ela dobrasse a esquina. Despedida feita, subi para meu quarto no quinto andar. Lá, abri o bilhete, onde estava escrito "Na próxima vez, te levarei a um lugar especial". Dobrei o papel de volta e o coloquei no bolso da calça que estava usando. Queria ainda dormir um pouco antes de chamar o táxi para o aeroporto. Odeio voos na madrugada.
Isso tudo aconteceu há cinco anos. Pietra ainda é minha amiga e mantemos contato pelas redes sociais, meio prático e barato de nos comunicarmos. Minhas idas a B.A. aconteciam todos os anos. Hoje completa cinco anos a nossa despedida na escadaria do hotel de três estrelas da Calle Paraguay. Não voltei. Talvez algo dentro de minha alma, refletida na mesa brilhante da Casa Rosada, tenha estranhado o bilhete. Sinto um arrepio na espinha quando me lembro da frase. Em todas minhas conversas com ela, não cito minha volta à Argentina. Não sei quando voltarei. Posso estar sendo egoísta. Também o fui na noite da despedida quando não avisei a Pietra que o fecho de sua mochila estava aberto.


Foto da autora. Interior da Casa Rosada, Buenos Aires, Argentina. 2010

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