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Quem sabe um dia, Laviane

Mesmo há quatro meses sem ver Laviane, sem que vai bem, vivendo longe daqui. Lembro-me de sua despedida, usando uma echarpe rosa enrolada no pescoço, além de um casaco vermelho, parecido com um sobretudo, com grandes botões pretos. As pessoas viajam sempre encapotadas, arrumadas da cabeça aos pés, como se aviões não fossem o cúmulo do desconforto, com assentos colados uns aos outros. Afinal, só conhecemos classe econômica.
Depois, a vida não nos surpreendeu em nada. Ela prometeu voltar um dia. Enquanto isso, posta em redes sociais seus itinerários diários, alternando Roma e Vaticano. Estive nesses lugares há tanto tempo, que tenho a sensação de nunca ter pisado lá. Gostaria mesmo era de estar lá ao lado de Laviane, o que seria impossível. Sim, impossível.
Há alguns anos, viajei em segredo para Atenas. Em segredo, porque não contei nada a Laviane. Pensei que conseguiria trabalho, por saber falar grego, como professor de filosofia. Consegui ficar apenas duas semanas. Nenhuma oportunidade interessante veio e tive medo do futuro. Voltei com menos dinheiro ainda e frustrado por não cumprir o que havia prometido para mim mesmo. Ao voltar, procurei Laviane e contei sobre minha empreitada. Ela não gostou por não ter dito nada a ela. Tentei explicar o porquê de minha discrição. Creio que, a partir daí, Laviane passou a planejar sua ida para Roma, sem me repassar nada.
Nunca soube se um dia estivemos juntos ou não. Não sei se nossos encontros podiam ser chamados, em conjunto e intensidade, de namoro. Nunca entendi Laviane e confesso que também tenho temperamento difícil. Quero distância de muitas pessoas, enquanto desejo mergulhar em mundos diferentes do meu.
Não sei se daria certo viajar ao lado dela, percorrendo as ruas de pedra de Roma, acotovelando-me em meio a turistas na Fontana de Trevi, fotografando os arcos do Coliseu, admirando a Coluna de Trajano ou tomando um café pequeno na Piazza Navona.
Tudo tão improvável. Não sei se Laviane volta. Confiro todas as suas postagens, diariamente. Parece feliz por lá, sempre desacompanhada nas fotos. Mas não quero me prender a Laviane. Não quero ninguém preso a mim. Planejo ir a Viena no mês que vem. Mas em segredo. Com roupas confortáveis. E não vou me encontrar com ninguém em rotas mais ao sul.

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