Em um conhecido e movimentado museu, de uma cidade do interior, acessávamos os banheiros por uma escada feita com velhos dormentes de trilhos de trem. A madeira já um pouco gasta, o ânimo já um pouco escasso, mas era só uma ida ao banheiro e o passeio chegava ao fim. Abro a porta azul royal e um cheiro forte de naftalina invade minhas narinas. Temo uma dor de cabeça. Acendo a luz. Visualizo três bolinhas do produto mortal aos insetos sobre o suporte de papel toalha. Sempre associei naftalinas a baratas, nojentas e inconvenientes. Mas o que baratas fariam em um museu tão distante do centro da cidade? Sempre associei baratas com restos de comida. E nem lanchonete havia no lugar.
Fecho a porta em frente ao sanitário que escolhi, meio às pressas, para fugir daquele cheiro nauseante. Ao olhar para o chão, um besouro enorme e cascudo está com as patas para cima. Nadava em vão no ar, com as patinhas em movimentos dementes. Lembrei-me de um conto de Julio Cortázar, em que o personagem que morava sozinho tinha medo de ir ao banheiro de madrugada e cair no meio do corredor, ficando lá de costas, para sempre, sem se levantar, como um inseto de carapaça ao chão. Pensei em desvirá-lo, como de costume, já que sempre o conto de Cortázar me vem à mente, mas desisto, porque para ele a morte se aproxima, envenenado com a naftalina que queima minhas narinas.
Ao abrir a porta, rumo à pia do banheiro, deparo-me com mais besouros em agonia. Todos com ventre para cima, nadando debilmente com patas ao ar. Em companhia deles, formigas grandes, coladas no chão, sucumbidas pelos vapores do naftaleno. O que todos faziam ali, naquele banheiro feminino, com toda a liberdade verdejante do lado de fora? Lavando as mãos, noto no ralo da pia duas bolinhas de naftalina tremendo com o bater da água. O cheiro se tornou insuportável. Arranquei o papel toalha às pressas e duas bolinhas rolaram no chão, caídas do suporte. Visualizei mais um três besouros à beira da morte, sendo um de uns quatro centímetros. Corri para a maçaneta da porta principal azul royal. De nada adiantaria desvirá-los. Teria pesadelos de Cortázar naquela noite. Apago a luz.
Do lado de fora, ar puro e verde das árvores. Vejo um besouro livre caminhando no piso. Que ele não entre naquela câmara mortal. Ao longe, cigarras estouram seus cantos, anunciando chuva debaixo de um céu cinza cor de chumbo. Desci a escada feita com dormentes de trilhos de trem, revigorada com o vento.
Por que pessoas odeiam besouros?
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