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A cigana

Até as próximas badaladas do relógio, empesteado de restos de pombos, da catedral metropolitana, Mariano não sairá de detrás da pilastra da obra abandonada ao lado mercado do Rui. Jurara ter visto um fantasma às três horas da tarde, passando em frente à catedral. Era uma mulher, de ares ciganos, saia longa rosa e cabelos negros compridos. Não conseguiu ver seu rosto. Na verdade, no lugar do rosto havia uma névoa. Não viu seus olhos, nem seus dentes provavelmente dourados. Viu um borrão que se alastrava em sua face. Mais nada. Quando deram as três e meia no relógio, Mariano, que ainda não estava atrás da pilastra da obra abandonada, a viu outra vez, atravessando a rua, rumo à praça do chafariz grande. Depois dela, passaram dois caminhões, lotados de árvores velhas cortadas. Mariano ficou confuso e a perdeu de vista. O semblante embaçado era o mesmo de antes. De costas, viu a cabeleira até a cintura se mover com o vento morno do meio da tarde, mas quando conseguiu mirá-la de frente, era um borrão enigmático que circulava pelas ruas do centro. Mariano ainda imaginou encontrá-la mais uma vez quando o relógio soasse as quatro da tarde. Mas apesar das badaladas fortes que viajavam no ar, a cigana-fantasma não apareceu.
Notou que somente ele vira a mulher. Todos continuavam com sua pressa pelas ruas asfaltadas e quentes. Mariano, com as mãos frias e suadas, não sabia para onde ir. Aquele era um fantasma que estava ali por sua causa. Nunca tinha visto uma cigana tão de perto. As roupas coloridas davam o recado, mesmo não havendo dentes de ouro para comprovar sua origem. Talvez era de sua vontade ler a mão de Mariano. A linha da vida que era curta, quase apagada em sua palma direita. A linha do coração que terminava em pelo menos seis ramificações. E a linha da cabeça que era longa e bem marcada. Mariano era um ser racional. Seu coração quase nunca palpitava de emoção. Todos os dias gostava de ir à praça do chafariz grande para encontrar alguém com quem pudesse jogar damas. No meio do caminho, uma cigana-fantasma o fez mudar de ideia. Era castigo, por há três dias ter pensado que já estava passando da hora de morrer, com seus oitenta e dois anos.
A cigana não apareceu mais naquela tarde quente de agosto. Mariano ainda observou o trecho por mais cinco badaladas completas do relógio da catedral metropolitana. Às seis da tarde, ouviu o sino da missa chamando os fieis. A essa hora, os companheiros da jogatina já deveriam ter ido para suas casas. A noite começava a cair quando Mariano decidiu ficar atrás de uma pilastra de uma obra abandonada. De lá, podia ver o cruzamento da Rua Aviários, a entrada da praça do chafariz grande e o relógio da catedral, cheio de pombas adormecidas. Escutava badaladas precisas de hora em hora. As mãos agora estavam geladas pelo frio da noite. Tinha medo de olhar para trás e ver os dentes de ouro da cigana.

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