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Um mistério de Conceição do Formoso


   Esta história, que diziam ser verdadeira, aconteceu em uma fazenda que ficava entre Santos Dumont e Conceição do Formoso. Quem a contava, o filho do dono da fazenda, repetia sempre a trama fantasmagórica com todos os detalhes. Punha medo em qualquer um que se lembrasse dela justo na hora de dormir.
   A família que morava na casa era numerosa, reunindo-se todas as noites para contar histórias. Naquele tempo não tinha televisão nem internet. As pessoas passavam o tempo contando histórias de seu dia-a-dia, casos divertidos ou de assombração. Sentavam-se espalhados por todos os cantos da sala, inclusive sobre uma velha canastra, um tipo de baú bem grande. Esta história era a favorita deles. E era verdadeira!
   Era assim. Depois da meia-noite, quando todos já estavam deitados para dormir, o mistério começava. Ouviam um arrastar de chinelos pelo chão, de alguém que vagava da sala para a cozinha e da cozinha para a sala. Na cozinha, a tal pessoa abria a lata de água potável, bebia um pouco em uma pequena cuia, e voltava outra vez para a sala, raspando a sola dos chinelos pelo assoalho. Na sala, abria a tampa da canastra, que rangia muito, e a fechava, de repente.
   Quem vivia na fazenda jurava escutar tudo isso até o dia amanhecer. Chinelos pelo chão, lata d’água destampada e tampa da canastra batendo várias vezes, repetindo-se noite adentro. Havia quem se arriscasse, no meio da madrugada, a desvendar essa estranha situação, mas, ao fazê-lo, encontrava tudo no lugar. A água na lata sempre estava no mesmo nível e os ruídos sumiam por completo. Era só se deitar que a agonia recomeçava. Da sala para a cozinha, da cozinha para a sala.
   Um dia, a família decidiu resolver esse caso de uma vez por todas. Fizeram uma pergunta em voz alta para a assombração:
   – Se você está precisando de oração ou missa, bata a tampa da canastra três vezes.
   Na hora, nada aconteceu. O dia correu normalmente. À noite, todos se recolheram na expectativa da resposta da alma penada. Não demorou muito e os chinelos se arrastaram pelo assoalho. Ainda na sala, a tampa da canastra foi aberta em um longo rangido e solta de uma só vez. Ouviram esse ruído por três vezes e não teve quem não sentisse um arrepio na espinha.
   No dia seguinte, mandaram rezar a bendita missa. E a assombração nunca mais apareceu na antiga fazenda.

*Meu livro "Mistérios de Conceição do Formoso" foi lançado hoje, às 19h30, na Biblioteca Municipal Antenor Ayres Vianna. A publicação é ilustrada pelo cartunista e quadrinista José Lucas Queiroz. O projeto ficou maravilhoso!
Atualizando: todos os 50 exemplares foram vendidos em uma semana!

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