Pular para o conteúdo principal

Meio Kafka, meio G.H.

 Sonhei com uma barata aprisionada em uma caixa de vidro. Enorme, velha. A caixa ficava em cima de uma prateleira branca, na parede do último quarto do corredor da casa dos meus pais. Dentro da caixa também tinha um dente que havia sido meu. Estranho, transparente e com raízes enormes. A barata presa não se movia. E não sei o que comia. Dente?

Curiosa, sacudi a caixa, e não sabia que ela tinha uma fresta. A barata saiu por ela e não correu como fazem as de sua espécie. Saiu pulando como uma pulga, um grilo. No momento, meu pai estava no quarto. Nem pensei em matá-la com meu sapato. Faria tudo de um jeito limpo e eficiente. Rapidamente peguei o inseticida de embalagem vermelha que estava no armário debaixo da pia do banheiro. Corri para o quarto e borrifei o veneno sobre sua carcaça marrom. Errei. Outra tentativa. Errei. O inseticida saia como água do spray. A cada erro, o carpete se encharcava, formando manchas enormes, escorrendo para todo lado. Na terceira borrifada, acertei. A barata andava em círculos e disse para meu pai que era assim mesmo, não morria na hora, mas depois de um tempinho estaria com as pernas para cima. E assim foi. Uma segunda barata, bem menor, me observava a distância. A da caixa era aquela ou a outra? Uma só foi morta. O carpete inundado de inseticida. Apareceu em um canto do quarto a mochila de ir para a escola do meu filho, com o fundo todo encharcado do veneno. Pensei comigo que estava demorando aparecer um objeto de um inocente para o sonho virar realmente um pesadelo. Limparia a mochila depois, porque de outro canto do quarto surgiu uma fila enorme de formigas. Comentei com meu pai que não era para se preocupar porque elas passariam sobre o carpete envenenado e morreriam uma a uma. A primeira da fila era enorme e vermelha, do tamanho de um hamster. Veio em minha direção. A lata vermelha de veneno estava vazia. Levantei o pé para esmagá-la, e ela correu com maestria para a esquerda. Com medo da formiga gigante, corri para o quintal. Descendo os degraus, observo que um muro havia sido construído bem no meio do terreno com árvores. Fiquei em choque. O muro era novidade para mim. Novidade dolorosa porque descaracterizava o quintal da minha infância. Comecei a chorar, esquecendo-me da formiga-rato.
Ao acordar, fazia uma careta estranha. Era de choro não chorado. Virei para o lado, e meu marido respirava profundamente em sono distante. Tirei minha placa de disfunção temporomandibular da boca. Alinhei-me na cama. Não havia barata, dente arrancado, mochila suja, formiga gigante e quintal com muro. Um pesadelo. Olhos abertos. Alívio. Adormeci rapidamente.
No dia seguinte, sonharia com uma alergia no rosto com vermelhidão e pus. A mesma alergia começaria no meu filho, o inocente que vaga nos pesadelos da mãe. Era 22 de março de 2018.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Cacos de ampulheta

  O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua s...