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Recorte de um dia comum

   — Nelinda, você pode passar na quitanda quando voltar da rua?
   — Qual quitanda, dona Esmeraldina?
   — A do Ernesto mesmo. É pra comprar três tomates e um pé de alface. O resto eu busco amanhã. Vou te dar o dinheiro.
   Com dificuldade, dona Esmeraldina se levanta do sofá e vai até o quarto. Chega na sala abrindo o porta-níquel prateado com flores vermelhas e entrega uma cédula e umas moedas à Nelinda, que, por sua vez, guarda tudo em seu porta-níquel verde desbotado. Havia um belo fim de tarde do lado de fora, com céu azul e vento fresco. Nelinda sairia rapidamente para ir ao sapateiro, verificar se suas sandálias já estavam com as solas consertadas. Indo para a casa de dona Esmeraldina, levaria o encomendado.
   A casa estava com as janelas da frente abertas. Um frescor balançava as cortinas e morria por entre os móveis. Era a primeira semana da primavera e o canto de um sanhaço podia ser escutado por entre árvores distantes. O dia estava realmente estupendo. Nelinda bateu o portão e caminhava calmamente pela rua. Sua vida não era bem aquilo que ela havia sonhado, mas poderia estar bem pior se não fosse a ajuda de dona Esmeraldina, uma viúva aposentada que já tinha sua casa própria, construída e deixada pelo marido. Às vezes, Nelinda pensava a valer sobre sua vida e não encontrava respostas para todas as faltas de sorte que havia sofrido. Hoje, estava sozinha e morava e de favor. Era uma conclusão muito dura. Poderia ser mais dura ainda se concluísse “hoje, estou sozinha e morando embaixo de um viaduto”. Porque ela, por pouco, não foi morar na rua.
   — Oi, seu Olívio. Minhas sandálias estão prontas? – perguntou Nelinda entregando o pequeno pedaço de papel que deveria apresentar no momento de busca da mercadoria.
   — Sim. Vou lá dentro buscar.
   Nelinda separava o dinheiro para pagar o conserto, sem querer misturar com o que foi dado pela dona Esmeraldina para os tomates e a alface.
   — Você quer uma sacola para levar as sandálias?
   — Sim, por favor. Aqui está o dinheiro. Tá certinho. Obrigada!
   ­Depois de virar duas ruas, chegava à quitanda do seu Ernesto, um homem moreno, de uns setenta anos, sempre com cigarro pendurado no canto da boca. Nelinda não gostava dali. Sua preferência era do sacolão de verduras no bairro vizinho, o Monte Lago. Mas dona Esmeraldina amava aquela quitanda feita em porta de garagem com “as melhores pencas de banana da cidade”. Seu doce de banana com calda, de fato, era delicioso. E com certeza ficaria assim com qualquer penca de banana da cidade. O talento estava na cozinheira, em não na quitanda, ainda mais uma daquela empesteada eternamente com cheiro de cigarro. A encomenda era três tomates e um pé de alface. Nelinda acha os tomates um pouco esverdeados e duros. As alfaces estavam bonitas. Escolheu o melhor que pôde, pagou e saiu de lá apressada. Nem conferiu as qualidades das pencas de banana. Cigarro com era com Nelinda.
   Deu a volta no quarteirão e chegou de novo em casa. O azul do céu já estava um pouco violeta, de fim de tarde. Sempre que passava pela porta da sala, Nelinda pensava que nada daquilo era seu. Vivia uma vida que não era sua. Quando via dona Esmeraldina, com seus ares de mãe cuidadosa, esquecia por algumas horas sua cobrança interna. Deixava-se levar pelo cotidiano. Pela brisa do fim do dia. Pelos aromas que vinham da cozinha, já que dona Esmeraldina gostava de jantar cedo para acompanhar a novela sossegada. 

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