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A rosa de Amarantino

Há muitos dias, vemos que Amarantino não anda bem. Resmunga incessantemente pelos cantos, além de dar suas tossidinhas, de pura mania, mais de oito vezes durante à tarde. Amarantino nunca esteve assim, tão distraído e esquecido de suas horas corretas, como a do café bem quente, às 15h, e a do banho morno, às 18h.
A fumaça do cigarro também está empesteando toda a casa, além do normal. Por esses dias, ele tem fumado dois maços, às vezes, faltando um ou dois cigarros para acabar. Antes, ele fumava um maço e mais uns quatro ou cinco do seguinte. Sua tosse de mania provavelmente está se transformando em tosse de necessidade, pondo para fora o veneno da nicotina, agarrado nas cordas vocais. É o que dizem.
Os vizinhos já notaram que veem menos Amarantino caminhando pelo jardim, em meio às roseiras plantadas por ele próprio, em sua juventude, depois da morte do pais. Primeiro, a mãe. Depois de quatro meses, o pai. Quanto luto e quanta dor em tão pouco tempo. Foi então que ele passou de meio maço de cigarro fumado por dia para um completamente inteiro, com um ou dois do maço seguinte. Nunca conseguia acender o fósforo de primeira. Dois palitos para cada cigarro. Não se acostumara ao isqueiro, coisa sem classe, segundo ele.
Não se casou, não teve filhos. Nunca teve belas pretendentes. É o que dizem. Trabalhou em burocracias até se aposentar, um tanto jovem, quando a época ainda permitia. Uma vida comum essa do Amarantino. A irmã casada mora em outra cidade, bem distante. De uns dias pra cá, há sim o aumento da tosse e o abandono das roseiras. Ele sempre tão esperto com o relógio, perdendo a hora do programa de músicas antigas, na estação de rádio favorita, às 20h.
Sentado na poltrona escarlate, próximo à janela que dá vistas ao quintal, Amarantino acende o cigarro, ainda da metade do primeiro maço, com o segundo palito de uma caixa de fósforos nova, e o leva a seus lábios finos e amarelados. Repensa coisas que anda ruminando nos últimos dias. Já esqueceu a hora do café quentinho com biscoitos quebradiços. Sobre a mesa, vemos uma rosa, com a cor escurecida, murchando talvez há uns seis dias. De quando em vez, Amarantino observa a rosa cortada do seu jardim, tragando o cigarro e resmungando o que ninguém entende. Ninguém entenderia um coração murcho de rotina, depois de uma rosa cortada, oferecida e recusada. Rotina dura essa de Amarantino.

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