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A bailarina que fumava

 Esqueceu, pela décima vez no ano, as sapatilhas em casa. Ludmila Branco se lembrou delas já no ponto de ônibus, depois de três quadras de sua casa. Mais uma vez, pediria emprestado um par para a instrutora. Provavelmente o par estaria ensebado e maior, ou menor, que seu pé. É horrível dançar com sapatos alheios.

Ludmila tem trinta anos, mas aparenta quinze, de tão baixinha e franzina. Mente todos os dias a sua idade para as novas colegas que aparecem nas aulas de balé. Ainda bem que muitas frequentam o lugar por pouco tempo e somem. A instrutora Judith não perdoa movimentos errados, posturas falhas, cabelos mal penteados e cara sem maquiagem. Mas empresta sapatilhas ensebadas. Isso nunca teve explicação para Ludmila.
Quando chega ao estúdio de dança, uma casa estranha com antigas janelas de gelosia, já tem mais ou menos a roupa de bailarina vestida por baixo. É só encaixar a saia e calçar as sapatilhas, quase sempre alheias. No quarto de trocar de roupa, várias outras moças fazem o mesmo. Ludmila mantém-se calada. Só sabe o nome de uma delas, a aluna mais antiga, uma das primeiras de Judith, a Alice. Com ela, troca sempre cumprimentos comedidos. Com as outras, nem um pequeno aceno que seja. Nas paredes do quartinho, cheias de marcas de mãos das bailarinas que se apoiam nelas para vestir-se, há no alto reproduções de quadros de Edgar Degas. Ele adorava pintar bailarinas, isso ela sabia. Imaginava o pintor tendo um caso com algumas daquelas figuras esqueléticas, daí a obsessão. Sempre observava uma personagem de um quadro à esquerda que se alongava, colocando o pescoço em uma posição quase impossível. Doía-lhe a garganta só de olhá-lo. Mas Ludmila o vê em todos os dias de aula. Retém-se na posição da menina, até causar-lhe um sufocamento na traqueia. Ela é sempre a última a sair do quartinho, concluindo que as meninas deveriam lavar as mãos antes de chegar ao estúdio em vez de deixar as paredes encardidas.
Ludmila está na aula de balé desde os quinze anos. Não sonha em fazer parte de espetáculos. Não sonha em correr o mundo espalhando sua arte. Ludmila não sonha. Apenas entra no ônibus todas as terças e quintas para dar de cara com Judith, que se veste de preto o ano todo. Também aos quinze começou a fumar cigarros de filtro branco. Continua com eles até hoje. Ao final das aulas, vai ao banheiro do estúdio para fumar um deles. Não há placas dizendo que é proibido, por isso, ela o faz. Algumas alunas reclamam com Judith, mas ela não faz nada, porque Ludmila é uma de suas primeiras alunas, matriculando-se meses depois de Alice. É praticamente um patrimônio do estúdio. Algumas se aborrecem e saem das aulas. Ludmila, além de fumar, oferece cigarro às moças. Escolhe as mais jovens, para ter o prazer de assustá-las. Repete o ato até elas sumirem de lá. Na verdade, seria bom que restassem apenas como alunas ela e Alice.
Judith é exigente. Odeia alunas que não aprendem logo a coreografia escolhida por ela. Não tem paciência com moças desajeitadas e desatentas. Ao final da aula, sempre vai cochichar algo no ouvido de Ludmila, que sorri com o canto dos lábios, antes de ir ao banheiro com o maço na mão. Alice também fuma desde os quinze. E o rodízio de moças que se matriculam e abandonam as aulas só aumenta. 

*texto publicado neste blog em 2015

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