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Várias rosas e um nome

 


*este é um texto muito antigo que escrevi numa época bem diferente da de agora; achei, digamos, interessante rsrsrs

Justo na hora em que mais estava atrasada, sempre passava um trem bem longo para azedar a sua paciência. Talita odiava chegar à esquina onde morava ao mesmo tempo daquele trambolho de mais de noventa vagões. O jeito era encarar a passarela toda suja e fétida, competindo os passos com dezenas de apressados pelas escadas e corredor estreitos. Mais um dia na faculdade, livros e mais livros pesando a mochila surrada, mais e mais tédio, já antecipado em sua cabeça, durante a aula de filosofia. Talita estava louca para terminar o curso e não via a hora de se libertar de resenhas, trabalhos em grupo, seminários, provas e etc. Durante a primeira aula estava a cair de sono em frente ao professor de terno de linho azul claro todo amarrotado. Não parava de imaginar uma vaca mascando a vestimenta do pobre em meio a um pasto verdejante. Os olhos pesavam e o ponteiros do relógio também. Mais um dia como outro qualquer, até a hora do intervalo onde tudo mudaria de cor, de forma, de nome e de crença. Talita recebeu um lindo ramo de dezoito rosas vermelhas entregue por um motoboy. Antes de se assustar, achar as flores maravilhosas ou cheirar uma delas para conferir aquele perfume esquisito que só rosa sabe ter, Talita correu para abrir o cartão e ver o nome de quem havia feito aquela intempestiva loucura. O bilhete era sucinto e dizia "Para a mulher mais admirável desta faculdade". Abaixo estava escrito o nome Lucimar Neves. Ela nunca havia ouvido falar naquele nome. Não sabia de nenhum Lucimar estudando naquele prédio ou nas proximidades. Colocou logo o bilhete no bolso e abafou os comentários suscitados pelas colegas. Passou a impressão, bem falsa aliás, que receber flores era uma bobagem, ainda mais vindas de alguém que não se conhece.
Talita nem quis mais saber das duas últimas aulas. Bem de fininho, foi embora para casa, pensando em seu admirador declarado, com o coração a galope de cavalo selvagem. Em casa pensou mil pensamentos confusos. Talvez Lucimar fosse um aluno novato, talvez nem fosse aluno da faculdade, talvez nem existisse, e tudo se transformaria em um ledo e aliviado engano. Talita optou enfim por não procurar informações do rapaz. Claro que ela estava curiosa, carente e muito lisonjeada pelas flores, mas era melhor ficar na sua e esperar o tal Lucimar aparecer em carne, osso e declaração face a face.
Muitos e muitos trens percorreram os trilhos próximos à casa de Talita. Das flores não restou nem pó da podridão, e nada de aparecer o Lucimar Neves. Talita logo se culpou da sua falta de atitude, de não investigar a fundo quem comprou as dezoito maravilhosas rosas. Sentada na cantina bem antes da primeira aula, ela trazia uma cara amarrotada de sono, tédio e desilusão. Bem que a vida podia ser feita de acontecimentos extasiantes um após outro, por dias e mais dias. Mas a realidade não tem açucareiro a tiracolo.
Deu a hora de ir para a sala de aula e enquanto juntava forças uma mulher muito simpática se sentou em sua mesa oferecendo biscoito de polvilho. Sem dar tempo a perguntas, logo disse que sabia qual era o seu nome. Talita pensou na hora que fofocas já deviam estar rolando solto sobre ela, a menina que recebeu flores e que não quis nem saber de quem eram. Mas ficou dez vezes mais sobressaltada ao saber que a mulher do biscoito de polvilho se chamava Lucimar Neves. Talita rendeu-se. Foi amor à primeira vista.

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