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Cacos de ampulheta - breve texto sobre calos, decisões e memórias

O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua só la...

Rosa e cinza

Mudança de ar Clima rarefeito A rosa se contorceu no mar de rosas E depois do último salto Caiu na caçamba para nunca mais Trepidou no latão Contorcendo-se por quatro esquinas Ainda perfumada, caiu na terra Pele avermelhada Sangrando Resignada Juntou-se a outras tantas Muitas Sentindo o calor aproximar-se Arderam mansas Todas Fumaça rosa Incensando Mar de cinzas.

O mar sempre tem razão

Visto de cima o mar é uma grande placa azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de corte duro pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe. Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam um idioma estranho, ...

Gaiola pequena

Bateu a porta e bateu em retirada feito cão raivoso. Ao sair sentiu um nó na traqueia de quem não via o mundo lá fora há muito tempo. A claridade o tonteou. Fora do prumo. Caminhando e varrendo a calçada irregular com as solas dos pés. O mundo do lado de fora é uma gaiola gigante, cheia de gente que acha estar livre e feliz. Ele esqueceu os óculos, mas as pessoas eram transeuntes vivas, apressadas, coloridas, rarefeitas, falantes. Não falava há dias. Ouvia muito e não falava. Não falava porque ninguém o entendia. Foi ficando derretido aos poucos, como neve no anúncio da primavera. Murcho. Escutando. Até que naquele dia ensolarado e quente de quinta-feira de manhã resolveu dar um basta. Calado, bateu a porta. Mudo, saiu percorrendo a calçada irregular com nó de gravata desajustada na goela. Ele não era culpado. Era simples de ideias, mas ninguém as ouvia. E quando resolviam ouvir o pobre enforcado nas angústias, ninguém compreendia. O mundo é uma gaiola imensa cheirando a gás carbônico...

Lua nova

Querida lua nova Seu rosto está triste e eu sei A luz se foi Não abruptamente O seu sorriso, sim Foi pelo mar de estrelas Uma a uma na imensidão Até tocar a ponta do meu sorriso Perdido Lua velha De cortinas fechadas Trarei cigarras Para embalar seu sono Durante a madrugada Amanhã outra vez Lua nova Lua velha.

La última batalla

Nora Nei andaba dando vueltas por el inmenso patio y no sabía si había hecho lo correcto. Hubo muchas batallas y escándalos, muchos obstáculos que ella no enfrentó. Simplemente los evitó. Eran fantasmas oliendo a moho, corriendo detrás de ella con sus terribles voces. Conocía bien toda la casa grande, todas sus habitaciones, todos sus armarios. El único lugar que le daba paz era el inmenso patio en el centro de la construcción antigua, con una fuente con aguas verdes. Caminaba sedienta como un réptil alrededor del agua ruidosa, que subía y caía sobre el pequeño mar, dentro del concreto. Nora Nei sabía, sobre todo, que la próxima batalla sería sangrienta y tal vez la última. Imposible sobrevivir, los enemigos eran incontables y las armas eran desconocidas. Cada luna no le traía la respuesta deseada. En el patio había seis puertas inmensas. Cada una daba a un lugar distinto de la casa grande. Nora Nei tenía gran conocimiento sobre el mapa. Podría andar con los ojos cerrados sobre él...

Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade. Os rios trotam com patas d'água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peça...