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Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade.
Os rios trotam com patas d'água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peças cinzas. Um xale enorme amarelo que sempre estava a secar. Os rios trotam ruidosamente, e talvez nunca soubesse o tom de voz da velhota, com cara de solidão recente. Não tinha luz. Não tinha gás. Tinha chaminé com fumaça embocada da lenha que esquentou o bule de café. Ou de água quente para tantas e tantas infusões. A velha estava agora lavando batatas em uma bacia. Eram muitas batatas para uma pessoa só. O tempo agora estava cinzento, com ar agitado. Segurava a saia com as duas mãos. Maldita chegada do inverno. Hora de regressar.
As pedras dos rios são traiçoeiras. Nem sempre a água as doma. Pé sangrando e dolorido da passada mal dada. A casa ainda a três quilômetros de distância. Pensou na senhora e no chá de hortelã recém-fervido. Queria só observar, mas não tinha jeito. Atravessou mancando o ruído dos cavalos d'água. As janelas cresciam. As cortinas eram roxas, e não azuis. O xale amarelo imenso, com franjas embaraçadas, era uma toalha de mesa surrada. A bacia com as batatas não estava mais do lado de fora. Não sentia medo. Era lembrança de algo. Era cheiro familiar. Engasgou-se ao chamar pela senhora. Não podia confiar tão cegamente na bondade dos dias atuais. Mesmo estando tão longe, em mata limpa e rios caudalosos. Já havia entrado. Estava na cozinha, com o fogão de lenha. Nada de bule, café ou hortelã. Gotas de chuva ecoavam nas telhas ralas. Entrou no quarto da velhota. Na parede um terço pendurado. Nem sentia mais o corte no pé. Sentia moleza, vontade de ficar.
Ficou meia hora ouvindo o estalar da lenha queimando no fogão. De fato, a senhora de lenço xadrez não apareceu. Nem naquela hora. Nem nas seguintes. O calor do fogo é bom quando chega o inverno. A saia verde já não tremia. Naquela cadeira no canto da cozinha permaneceu até a noite chegar. O dia nublado traz lembranças de tantas casas, de tantos rios, de tantas cortinas pequenas.

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