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Olhos de ontem, doutor

"Meus olhos são os de ontem, doutor", disse a senhora ao médico, com a bolsa surrada de courvim preto agarrada ao ombro direito. Reclamava das noites mal dormidas, nada dormidas, enquanto o marido sofria de febre altíssima inexplicável. Queria remédios para ele. "Ele está bebendo muita água?", perguntou o doutor. "Água gelada, leite gelado... ele diz que parece ter uma fogueira ardendo dentro dele. Um desespero, doutor". A voz da senhora era firme e clara. Deveria rezar terço da primeira até a última bolota sem esmorecer no tom da reza. Muito firme a senhorinha. "Se não tiver algum remédio, não tem problema, doutor. Eu peço dinheiro emprestado para minha patroa, para a dona Cecília, dona Cidinha, dona Sebastiana. Peço para as pessoas da minha rua. Se não tiver, não tem problema, eu me arranjo", discursou pesarosa, vestindo sua blusa florida, duas medidas acima de seu tronco encolhido, e saia preta de todas as ocasiões. Como a intimidade sobre o...

O ano novo de Adélia

Há quem frite pedaços de fígado. Há quem frite coraçõezinhos. Há quem frite a pele. Adélia frita um ovo na tarde de verão. Meio-dia já se foi no relógio e muita coisa ficará em sua memória nos próximos dias. Neste fim de ano, ela torce para que o próximo ano seja melhor. É o que afirma todo mês de dezembro desde que entrara na fase adulta. Tem sensações de estar fazendo as coisas de forma errada o tempo todo. O telefone nunca toca com notícias de fogos de artifício. Seus dias andam com sabor de soro fisiológico de geladeira. Não admite que seu sabor seja o mesmo das lágrimas. Mas também não lembra o mar. Os oceanos foram feitos de lágrimas de Deus. Em janeiro, usará as mesmas roupas e comerá mamão de fim de feira toda vez que der as três da tarde. Isso se ficar em casa e não arrumar um emprego. Para o próximo ano, ela promete aceitar oportunidades que antes não imaginara, por respeito aos diplomas conquistados até então. Bobagem. A grana é necessária e necessidades são sempre urgentes...

A delicada Sinomara

Parecia não ser muito prudente pendurar o barulhento mensageiro dos ventos logo ali, na porta de entrada. Era grande e ruidoso e não faltaria quem reclamasse do tilintar repetitivo. Não se pode fazer tudo de acordo com o que se deseja. Há o outro. Há a Amália, o José, a Haydée, o Felipino, a Úrsula, a Vitória, a Sebastiana, o Irineu. Há também o Eulálio que mora na casa dos fundos. E há muitos cachorros que podem desandar no latido da madrugada, incentivados pelos cilindros de metal. Há quem não goste, há quem goste mais ou menos, há os indiferentes. Mas sempre há. Os que não gostam de nada estão a postos com suas caras de marmelada amarga. Na manhã de sol ameno e vento franco, Sinomara arrancou o mensageiro dos ventos da porta de entrada. Durara apenas uma noite ali. Os cães não desandaram em latidos na madrugada, nem os vizinhos mais próximos, como a Sebastiana e o Irineu, reclamaram. Tampouco os de dentro de sua própria casa, como Felipino e Úrsula. Sinomara não dormira bem, preoc...

A cigana

Até as próximas badaladas do relógio, empesteado de restos de pombos, da catedral metropolitana, Mariano não sairá de detrás da pilastra da obra abandonada ao lado mercado do Rui. Jurara ter visto um fantasma às três horas da tarde, passando em frente à catedral. Era uma mulher, de ares ciganos, saia longa rosa e cabelos negros compridos. Não conseguiu ver seu rosto. Na verdade, no lugar do rosto havia uma névoa. Não viu seus olhos, nem seus dentes provavelmente dourados. Viu um borrão que se alastrava em sua face. Mais nada. Quando deram as três e meia no relógio, Mariano, que ainda não estava atrás da pilastra da obra abandonada, a viu outra vez, atravessando a rua, rumo à praça do chafariz grande. Depois dela, passaram dois caminhões, lotados de árvores velhas cortadas. Mariano ficou confuso e a perdeu de vista. O semblante embaçado era o mesmo de antes. De costas, viu a cabeleira até a cintura se mover com o vento morno do meio da tarde, mas quando conseguiu mirá-la de frente, era ...

Sobre o agora, sem muita compostura

Ainda não enjoei do café Ainda não enjoei do perfume Chorei pela rotina Choro em todas as vésperas Não é tristeza É relógio emperrado Meu corpo não se encaixa Nas dobraduras da horas Como colocar pra fora O que se sente Passando pela goela Se angústia não tem garganta?

A vida futura de Celina

Sobre a cristaleira, ainda duas peças restantes. Venderia mais tarde sem pena do passado. Duas terrinas de porcelana rosa que nunca foram usadas não fariam falta agora que pensava em deixar a casa para o dono do farol. Aquele homem andava insistente e Celina estava velha e cansada demais para discussões. Pela manhã, a areia fina havia entrado pela porta da sala, deixando um rastro de vento desenhado sobre o solo. As vassouradas custaram a completar o serviço. Manter uma casa com oito grandes cômodos para se viver sozinha era um disparate para Celina. O forno não funcionava mais como antes. Percebera que acumulou panelas além da conta. Sua obsessão por panelas de todas as formas e tamanhos a fez encher as paredes da cozinha de ganchos intermináveis. Na última semana, conseguira vender dezesseis delas. O dinheiro não fora muito, mas a urgência da mudança, reforçada pelo velho do farol, empurrava Celina a cometer o inimaginável. As terrinas ficaram por último porque não achava comprador p...