"Meus olhos são os de ontem, doutor", disse a senhora ao médico, com a bolsa surrada de courvim preto agarrada ao ombro direito. Reclamava das noites mal dormidas, nada dormidas, enquanto o marido sofria de febre altíssima inexplicável. Queria remédios para ele. "Ele está bebendo muita água?", perguntou o doutor. "Água gelada, leite gelado... ele diz que parece ter uma fogueira ardendo dentro dele. Um desespero, doutor". A voz da senhora era firme e clara. Deveria rezar terço da primeira até a última bolota sem esmorecer no tom da reza. Muito firme a senhorinha. "Se não tiver algum remédio, não tem problema, doutor. Eu peço dinheiro emprestado para minha patroa, para a dona Cecília, dona Cidinha, dona Sebastiana. Peço para as pessoas da minha rua. Se não tiver, não tem problema, eu me arranjo", discursou pesarosa, vestindo sua blusa florida, duas medidas acima de seu tronco encolhido, e saia preta de todas as ocasiões. Como a intimidade sobre o...
O improvável sorri com dentes de hiena. Bem-vindo(a).