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Arrependimento #2

Na minha infância Choveu em fevereiro No rádio Uma canção francesa pop Caíam gotas e mais gotas da rosa no jardim Atrás do vidro da janela da sala Pensei em ampará-las em um vidro de maionese Mas tínhamos uma vida saudável.

Arrependimento #1

Ao cruzar a rua Debaixo do semáforo Dei de cara com um desafeto Um tanto magro Perguntou-me sobre as horas "As horas"? É um clássico de Virginia Woolf Sem entender nada, partiu o desafeto Descobri que não é bom atrelar-me A quem tem uma estante decadente.

Úrsula da sapataria

Na sapataria, que completou trinta anos de existência no mês passado, Úrsula remenda o couro de uma bota de cano longo, enquanto o marido atende os clientes. Na semana passada, uma pessoa escreveu na madeira do balcão as iniciais UJ com caneta esferográfica sem que ele visse. Uma pena, pois o balcão também completou trinta anos no mês passado. Alguns arranhões podiam ser vistos, mas as iniciais UJ a desagradaram muito. Seriam difíceis de ser removidas. Depois do último ponto dado à bota, Úrsula continuou sentada à máquina de costura. Uniu em sua frente o par de botas negras e pensou na provável aparência de sua dona. O salto era enorme e fino. Nunca havia usado um salto desses em seus cinquenta e nove anos de vida. Eram botas para uma ocasião especial, mesmo que precisassem ainda de uma boa engraxada. O Olavo, que trabalha de engraxate na esquina da Amoreiras com a Júlio Pereira, com sua caixa de madeira incrementada, daria um jeito perfeito nelas. Sendo sua dona, calçaria o par com um...

Veia cava

Tentamos nos calar. A lava do vulcão transbordou. As larvas se remexeram no submundo. Palavras vermelhas se afundaram e perfuraram minha veia cava. Superior. Inferior. Meus pés incharam. A língua murchou por quarenta e oito horas. Foi um bom período de sobrevivência. Aprendemos a respirar com a ajuda de aparelhos. E calados nos aliviamos de todas as possibilidades do dicionário com mais de quatrocentas páginas. Não era o momento de subir ainda à superfície. As larvas ainda estavam vivas, pedindo alimento. Estávamos fracos. Estávamos aproveitando cada segundo do ar, que se tornava rarefeito. Não sabíamos usar ponto e vírgula. A veia estava estrangulada e as mãos também começaram a inchar. A cabeça de ninguém se encontrava em bom estado naquele momento para responder o que era perguntado. Não contaremos quais foram as perguntas. Imaginem. Fiquem à vontade. Depois de quatro dias respirando com um tubo entalado na garganta, saímos do estado de torpor. Mais rugas apareceram na testa, e ao r...

Solvente

Dos azuis encontrados Estendidos na relva Salvam-se os que foram pintados Por humanos que ainda creem na salvação Dos vermelhos tirados Das árvores mortas Ficam os pontilhados Das lanternas que vigiam Dos verdes desbotados Em casas esquecidas Restam retratos e tatuagens Sob lápides vigorosas Dos amarelos sorridentes Espetados nos montes Valem os que persistem Nas guerras incontroláveis dos egos Dos brancos pálidos Em barbantes podres Amarram-se gentilezas perdidas Impossíveis de serem vistas O tempo fechou sobre o marrom dos telhados Das lamúrias que eram de vidro.

Ária 1

   Passou ao lado do tocador de órgão que recebia moedas em um quepe cáqui, estendido ao público pela mão esquerda. A música do realejo ecoava pela Avenida 16 de Setembro, juntando-se a tantas outras canções que se misturam pelos ares da cidade. Uma metrópole movimentada pelos mesmos rostos morenos, passando pelas mesmas ruas, cheias de casacos em pleno outono abafado. Havia quase ninguém no interior das lojas, que raramente anunciavam promoções. A 16 de setembro desembocava no Zócalo, uma praça imensa, histórica, cheia de patrimônios e multicultural. Uma bandeira enorme do país flanava vagarosamente em seu centro. Esticada à direita, como se o vento a segurasse em suas pontas, exibindo-a aos visitantes.    Um campo aberto, com muitas vozes, crianças correndo, pessoas tirando fotos com a catedral ao fundo, com seus sinos pesados anunciando celebrações. Lá dentro, o Senhor do Veneno olhava cabisbaixo, crucificado e negro, todos os passantes, todos os pedintes, todo...