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O mar sempre tem razão*

Visto de cima o mar é uma grande placa azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de corte duro pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe. Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam um idioma estranho, ...

Um resumo do problema de Corbélia

Subindo as escadarias estreitas do edifício Antoine, Corbélia carrega um pacote pesado. Ela sabe o que o embrulho contém. E que tem que entregá-lo no apartamento 302, aos cuidados de Estephania e que só pode deixá-lo nas mãos dela. Quem pediu a tarefa foi o seu melhor amigo, Afonso. Enquanto subia os degraus, já quase sem fôlego, se perguntava por que o próprio Afonso não deveria entregar aqueles livros pesados, tão bem embalados. Ele morava perto do Antoine, inclusive. Na pressa de fazer logo o favor a ele, já que ela devia mil e um e outros mais a ele, nem havia perguntado sobre isso. Era melhor entregar tudo e voltar depressa pra casa, porque um temporal estava a caminho. Tocou a campainha do 302 por três vezes. Uma mulher alta, de olhos castanhos, atendeu a porta com ares sonolentos. Corbélia lhe disse boa tarde e estendeu o pacote para a moça, dizendo que era entrega do Afonso Lugares. - Eu não conheço nenhum Afonso Lugares! - Mas aqui não é o 302? - Sim. - Não é o edifício A...

Calos

Meu caso é feito de Seu descaso E ao acaso Desci ao caos Para conferir Se fui eu que criei Seus calos No calor de minhas passadas Não fui eu Não foi nada Esqueci a cal Na última pazada.

Dona Esmeraldina

Dona Esmeraldina ligou pra mim às quatro da tarde. O assunto era urgente, sobre uma sobrinha que a destratara pelo telefone, horas antes, só porque ela se recusou a ajudá-la financeiramente em um empréstimo bancário. Moro na mesma rua de Dona Esmeraldina e a conheço há mais ou menos um ano. Não é muito tempo, mas sempre conversamos desde que mudei para perto dela, moradora da região há mais de vinte anos. Era a segunda vez que Dona Esmeraldina me ligava. Morava sozinha, viúva e sem filhos. Tinha cinco sobrinhos adultos, que volta e meia a infernizavam, quase sempre sobre dinheiro. Ela podia ter ligado para diversos outros moradores da rua, vizinhos antigos, mas acabou ligando pra mim, no meu dia de folga, para desabafar assuntos familiares. Eu, com cara de boazinha, devo ter despertado a confiança de Dona Esmeraldina. Atravessei a rua e toquei a campainha da casa às 16h17. Não demorou muito e ela atendeu. Nunca havia entrado em sua casa. Nossas conversas eram no portão ou pela janela...