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Fragmento-me

Dias nublados Trazem  Saudade quente. Aquece-se a rotina  Sol laranja  Morre todos os dias. Tempo morno É o que trazem Os pés sobre a terra. Na sombra da laranjeira Meus suspiros Pendurados.

Confissões de Armênia

Olho pelo buraco da fechadura. Porque não me chamaram para a conversa. Não posso ver bem através de um buraco tão empoeirado, mas é o que tenho no momento, depois de tantas adversidades vividas por aqui. As pessoas que observo não cabem bem na visão que tenho, quadrada embaixo e arredondada por cima. É uma fechadura de uma porta antiga, pois sendo moderna nem daria para investigar nada. Vejo que Armênia está chorando diante da mãe e que gesticula muito. Parece estar explicando algo que não está convencendo. Sei que Armênia está envolvida em um romance o qual a família não aprova. Já faz um tempo que a vi andando na rua com um rapaz de camisa azul e barba ruiva. Não o conheço. Muito menos o conhece a família de Armênia. Disse a ela para tomar cuidado. Mais com a própria família do que com o rapaz. Mas não me deu ouvidos. Ficou com raiva de mim. Rompemos contato. Armênia é filha única e muito mimada. Mas creio que agora a mãe já sabe de tudo. Elle s'est perdue. Atrás da fechadura...

Acelerados

Gota da árvore Escorre na folha Cai na praça Vira fumaça Entre pedestres Que não sabem Que o sereno Vampiro Corre da luz O verde ainda faz graça Nos nossos dias urbanos acelerados.

O piano de capricórnio*

"Quando os dedos se afundam com muita força nas teclas do piano, isso indica que é hora de retroceder. É hora de repensar e fazer de um modo distinto". Pensava assim todos os dias Geandra, com seus dedos longos e talentosos. Um tanto tristes nos últimos dias. O estômago estava sempre pesado. Pequenas pedras engolidas diariamente. O alento de Geandra era inventar músicas novas no piano surrado. Mas com os dedos pesados de preocupação, ela não estava criando nada. Peixes mortos na superfície do aquário. Capricornianos são desse jeito, trazendo pontada de infelicidade na alma. Querendo que tudo saia corretamente nos planos mundanos. Geandra fazia aniversário na véspera do ano novo. Ela odiava simpatias minutos antes do primeiro de janeiro. Odiava a felicidade repentina de quem depois apresentaria cansaço e descrença na vida pelos próximos 365 dias, trabalhando em coisas que não acreditavam. Geandra acreditava em seu piano, e em suas criações. Gostava de ficar sozinha, de admira...

Lua nova

Estrada escura  Pois é lua nova Sobre os cascalhos Invento subterfúgios Versos descompassados Desbotados Que não se encaixam Quando a lua está zerada A cicatriz não dói Não há parto de ideia Há casco de cavalo Somente Batendo sobre o cascalho Todo compassado Sob o véu negro de um céu Apagado.

Mensagem na garrafa

Clarita acordou decidida a colocar uma mensagem em uma garrafa e lançá-la ao mar assim que pudesse ir à praia no final de semana. Sempre sonhara com isso desde a infância e os adiamentos estavam incomodando-a há um tempo. Por que adiar algo tão simples? A ideia era escrever uma frase legal e inspiradora, à mão mesmo, em um pedaço de papel, qualquer tipo de papel, enrolar no formato de um canudinho, enfiar no gargalo de uma garrafa pequena e atirar nas águas salgadas, sem dó sem piedade. O fato de um estranho, talvez lá do Havaí ou do Alasca, abrir a garrafa e ler algo vindo de tão distante a fascinava. Porque, quando criança, Clarita perdeu as contas de quantas vezes ficava na areia, durante uma tarde inteira, esperando uma garrafa sair das espumas e rolar aos seus pés salgados. O conteúdo da garrafa não importava. Seu encantamento consistia em ser a eleita, a sortuda, a escolhida entre milhares para tirar a rolha de um recipiente que poderia ter viajado desde o Japão. A garrafa estav...