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Quem sabe um dia, Laviane

Mesmo há quatro meses sem ver Laviane, sem que vai bem, vivendo longe daqui. Lembro-me de sua despedida, usando uma echarpe rosa enrolada no pescoço, além de um casaco vermelho, parecido com um sobretudo, com grandes botões pretos. As pessoas viajam sempre encapotadas, arrumadas da cabeça aos pés, como se aviões não fossem o cúmulo do desconforto, com assentos colados uns aos outros. Afinal, só conhecemos classe econômica. Depois, a vida não nos surpreendeu em nada. Ela prometeu voltar um dia. Enquanto isso, posta em redes sociais seus itinerários diários, alternando Roma e Vaticano. Estive nesses lugares há tanto tempo, que tenho a sensação de nunca ter pisado lá. Gostaria mesmo era de estar lá ao lado de Laviane, o que seria impossível. Sim, impossível. Há alguns anos, viajei em segredo para Atenas. Em segredo, porque não contei nada a Laviane. Pensei que conseguiria trabalho, por saber falar grego, como professor de filosofia. Consegui ficar apenas duas semanas. Nenhuma oportunida...

Fragmento-me

Dias nublados Trazem  Saudade quente. Aquece-se a rotina  Sol laranja  Morre todos os dias. Tempo morno É o que trazem Os pés sobre a terra. Na sombra da laranjeira Meus suspiros Pendurados.

Confissões de Armênia

Olho pelo buraco da fechadura. Porque não me chamaram para a conversa. Não posso ver bem através de um buraco tão empoeirado, mas é o que tenho no momento, depois de tantas adversidades vividas por aqui. As pessoas que observo não cabem bem na visão que tenho, quadrada embaixo e arredondada por cima. É uma fechadura de uma porta antiga, pois sendo moderna nem daria para investigar nada. Vejo que Armênia está chorando diante da mãe e que gesticula muito. Parece estar explicando algo que não está convencendo. Sei que Armênia está envolvida em um romance o qual a família não aprova. Já faz um tempo que a vi andando na rua com um rapaz de camisa azul e barba ruiva. Não o conheço. Muito menos o conhece a família de Armênia. Disse a ela para tomar cuidado. Mais com a própria família do que com o rapaz. Mas não me deu ouvidos. Ficou com raiva de mim. Rompemos contato. Armênia é filha única e muito mimada. Mas creio que agora a mãe já sabe de tudo. Elle s'est perdue. Atrás da fechadura...

Acelerados

Gota da árvore Escorre na folha Cai na praça Vira fumaça Entre pedestres Que não sabem Que o sereno Vampiro Corre da luz O verde ainda faz graça Nos nossos dias urbanos acelerados.

O piano de capricórnio*

"Quando os dedos se afundam com muita força nas teclas do piano, isso indica que é hora de retroceder. É hora de repensar e fazer de um modo distinto". Pensava assim todos os dias Geandra, com seus dedos longos e talentosos. Um tanto tristes nos últimos dias. O estômago estava sempre pesado. Pequenas pedras engolidas diariamente. O alento de Geandra era inventar músicas novas no piano surrado. Mas com os dedos pesados de preocupação, ela não estava criando nada. Peixes mortos na superfície do aquário. Capricornianos são desse jeito, trazendo pontada de infelicidade na alma. Querendo que tudo saia corretamente nos planos mundanos. Geandra fazia aniversário na véspera do ano novo. Ela odiava simpatias minutos antes do primeiro de janeiro. Odiava a felicidade repentina de quem depois apresentaria cansaço e descrença na vida pelos próximos 365 dias, trabalhando em coisas que não acreditavam. Geandra acreditava em seu piano, e em suas criações. Gostava de ficar sozinha, de admira...