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Oficina de escrita no Sesc Santos Dumont-MG - Poemas!

   Em 11 de novembro deste ano, aconteceu na unidade do Sesc, na cidade onde moro, uma oficina apresentada por mim chamada "Rimando ou não, com Florbela, Gullar e Leminski", com uma parte prática que rendeu muitos poemas! Os alunos aqui em destaque são Marcela Ribeiro, Selma Carvalho e Vinícius Sant'anna. Seus escritos falam sobre o que pensam e sentem; podem ou não ter rima ou título. A manhã de sábado ficou contagiada pela poesia e aqui, em meu blog pessoal, transmito os resultados. Dois poemas tiveram minha participação. Boa leitura! Sorriso estridente na minha alma Exatidão de momento não cria futuro A angústia não dita, vivida e sofrida A solução poderia estar tão próxima Por que sorrir? O que faz isto dentro de mim? Ansiosa pelos segredos que não quero descobrir Alegro-me com tão pouco, porém, este pouco me faz falta Sempre esperamos por respostas que não chegam Sorrir, sorrir, sorrir, é o que devo Cupido maldito: o que foi que eu te pergunte...

Besouros

Em um conhecido e movimentado museu, de uma cidade do interior, acessávamos os banheiros por uma escada feita com velhos dormentes de trilhos de trem. A madeira já um pouco gasta, o ânimo já um pouco escasso, mas era só uma ida ao banheiro e o passeio chegava ao fim. Abro a porta azul royal e um cheiro forte de naftalina invade minhas narinas. Temo uma dor de cabeça. Acendo a luz. Visualizo três bolinhas do produto mortal aos insetos sobre o suporte de papel toalha. Sempre associei naftalinas a baratas, nojentas e inconvenientes. Mas o que baratas fariam em um museu tão distante do centro da cidade? Sempre associei baratas com restos de comida. E nem lanchonete havia no lugar. Fecho a porta em frente ao sanitário que escolhi, meio às pressas, para fugir daquele cheiro nauseante. Ao olhar para o chão, um besouro enorme e cascudo está com as patas para cima. Nadava em vão no ar, com as patinhas em movimentos dementes. Lembrei-me de um conto de Julio Cortázar, em que o personagem que mo...

Livros de ouro

Há um tempo Conheci o paraíso E ninguém acreditou Até hoje alguns Não Me Ouvem Não querem saber Que lá ainda passeiam Borges Lispector Saramago Gabo Amado Quando digo que o paraíso é depois da esquina Tão perto Alguns ainda duvidam Mas Quando Lá Pisam Reconhecem a imensidão Os primeiros passos dados Páginas de livros antigos Que se multiplicaram Depois de Dois lances de escadas Depois do Prazeroso bom dia ou boa tarde Depois de alguns passos à esquerda Estão todos lá Kafka Machado Veríssimo Adélia Callado As horas se derretem Açucaram Somadas ao perfume de papel organizado Tempo fabulosamente acumulado Em fileiras de sonhos Ordem alfabética O escritor argentino tinha razão O éden se encerra Entre páginas múltiplas Há um tempo Conheci o paraíso Tão perto E há os que não acreditam Sim! Existe! Há cinquenta anos nesta terra que tanto amo Alvíssaras! Vida longa aos livros de ouro Vida longa à Biblioteca Antenor Ayres Vianna. *texto em ...

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém ...

Sobre as margaridas

Nunca te disseram que margaridas são amargas? Despetaladas, com um copo d'água Desavisada Depois de todas as papilas Bem mastigadas Brancas desbotadas Com fúria Nunca te disseram que margaridas são amargas? Envenenadas Arrancadas, com a mão gelada Prostrada Depois de todas as manhãs Bem misturadas Memórias amareladas Com tempo Nunca te disseram que margaridas são amargas? Desgraças Cafeinadas Tombadas Ao nascer sob um sol amaríssimo.

Ad infinitum

Dentro do ônibus vejo outros ônibus Paradas lotadas Pessoas amontoadas Ônibus que param Que seguem Abarrotados Gente que perde a hora, que esquece de fazer sinal Ônibus que freiam, que levantam poeira Motoristas bem Ou mal Humorados Passageiros em pé Sinal fechado Dentro do ônibus vejo outros ônibus Horário de pico De multidão De zigue-zague De dezoito horas E ônibus passam E passam E param Debaixo de milhares de estrelas.

A sopa

Em uma noite como outra qualquer, Zulmira decidiu servir um jantar diferente. Não sabemos o motivo, que deveria ser bem pessoal, pois a noite era uma noite qualquer mesmo, sem sombra de dúvidas. Lembro-me de ser uma terça-feira de outubro, um pouco fria, mas não muito, quem sabe dia 21 ou 22. Uma noite mais comum que essa era impossível. O que animava Zulmira a sair de seu ânimo, sempre pequeno e imperceptível, era um mistério. Anunciou o jantar especial com dois dias de antecedência e não vi nenhuma compra diferente, feita no mercado pequeno do seu Romeo, chegando em casa e se espalhando sobre a mesa da cozinha, já que nos armários o que tinha era o mesmo da semana passada. Os olhos de Zulmira brilhavam de um jeito estranho. Falava com uma animação, que às vezes ela parecia diminuir um tanto para que ninguém a questionasse sobre o motivo da felicidade repentina. Os dias eram difíceis naquele tempo, para ela e todo mundo. No domingo, ela anunciou que na terça-feira a noite seria dist...