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Resgatei um poema

Resgatei um poema Guardado na gaveta Parece que foi outro Parece que foi ontem Perece a cada linha Desmantela-se Sobram letras Faltam vírgulas Falta coragem Ainda bem Parece que foi outro Não minha mão tão enrugada Não minha mão tão arrependida.

Vidro e ouro

Nem todas as vidraças serão acertadas por pedras As que sobrarem contarão suas histórias Prestarão homenagens às que tombaram E que não viram O futuro refletido em suas carcaças Com todo ouro do mundo que um sol pode cuspir E que não podem agarrar Sentirão apenas o calor que sufoca Mas que não derrete suas almas quebradiças As pedradas avançam entre uma noite e outra Em intervalos longos Quando somente ferragens estiverem expostas Com cacos e lodo misturado-se no chão Os raios de sol fugirão com seu ouro Pra que esquentar ferragens? Pra que escorrer em paredes até o vão?

Sapatos molhados

Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram bons am...

Limões

Domingo tem cheiro De limão galego Cortado por quem  Não está mais aqui De manhã Quando é domingo Se por acaso um limão partido Aparece Mesmo sendo taiti Sinto saudade de um tempo De quem não está mais aqui Lágrimas surgem  De limões De memórias empilhadas De olfato cauteloso Não de cebolas.

Sentimentos portáteis

Não foi assim tão fácil Colocar nossos sentimentos portáteis Em um salão tão vasto Decorado Com leques e ameixeiras Não identificamos a cor das paredes Puxamos a cadeira Sentamos no meio do ar que gelava, vindo do lado de fora A cada lufada Um descanso na alma Entre almofadas vermelhas novas Éramos só nós E nossos sentimentos portáteis Não identificamos as paisagens dos quadros Estávamos perdidos Exatamente onde queríamos A chuva caiu às cinco da tarde.

À mesa com memórias

Brócolis. Pequenas árvores mastigadas lentamente. O rosto que ela avistava mesas à frente era tão familiar. Tinha traços reconhecíveis. Olhos ternos e aconchegantes, como edredom leve em dias de temperatura indefinida. O rosto inteiro era familiar. Pareciam conhecidos de longa data. A moça de uniforme vermelho pergunta se ele vai tomar alguma coisa. Ele responde água. Água aconchegante como edredom azul recém-comprado. Couve-flor é um brócolis que ficou pálido de susto. Ela repassa nas memórias antigas alguém que seja assim, como ele. Tão familiar. Poderiam ter estudado juntos, trabalhado juntos, brincado juntos em qualquer parque sujo da infância. Quem sabe ele não perguntou as horas em alguma esquina desencontrada de ruas sem nomes importantes ou lembráveis. A cada mastigada o olhar deveria ser discreto. Porque tudo poderia ser um grande engano. A presença dele mesas adiante deixou seu almoço paralisante. Comia porque iria trabalhar depois. Necessidade do estômago vazio. Mas o pensam...

Marte

Sol em leão Marte tão próximo Promessas mal feitas * Fucemos o tumblr Sem nem ao menos saber como se pronuncia O mesmo E dentre tantos gatos, paisagens, frases, montanhas, viagens, metrôs e louças Talvez nos encontremos Dentre as caixas da mudança * Marte tão próximo Com sua luz avermelhando O vão das portas As madrugadas que respiro.