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O anel de pedra vermelha

Em suas andanças diárias, Urbano encontrou, abandonado no asfalto de uma rua sem saída, um anel com pedra vermelha. Parecia feito de ouro, mas a pedra não parecia rubi. A pedra era opaca, muito estranha, de uma cor escura que o tempo surrou. O dourado resplandecia. Fora descartado por gente importante, pensava Urbano. Mas que pessoa importante frequentaria um beco sem saída com casas tão pequenas? Era noite fechada, umas dez e meia. Olhou para as janelas da rua pequena. Uma ainda estava acesa, com uma lâmpada incandescente fraca. Era a casa da dona Iva, uma velhinha costureira. Devia estar remendando algo, sentada no sofá da sala, assistindo à ultima parte do capítulo da novela. Nas outras cinco casas, as janelas estavam um breu. Dez e meia da noite, em uma terça-feira, era hora de todos estarem dormindo para enfrentar a quarta-feira. Urbano não é desses. Vive de um trabalhinho aqui e outro ali. No mais, a vida é de andanças, catando uma coisa aqui e outra ali. Um anel de pedra vermel...

Ausência

Sonhei com você Com seus cabelos curtos grisalhos Perguntando da vida Da minha E eu sem a sua Você usava uma blusa cinza Na cozinha me perguntou Como vai a vida E depois na manhã seguinte Repassei sua gargalhada sonora Mais uma vez Na minha vida Sem a sua Saudade.

Picolés

Vamos lidar com as nossas distâncias Debaixo desse céu único anil Esses quilômetros maravilhosos entre um E outro Dispensando as farsas Como é bom quando o vendedor de picolés passa E minha dúvida é Tão e somente Entre a uva e a graviola Como é bom saber Das nuvens gigantes, dos quilômetros intermináveis Da ausência do seu jeito O picolé pingando, manchando a calçada Aquela nuvem parece nossa perfeita desunião.

Poeminha mal feito

Tão confuso tudo isso Que nem deu poema às pressas Nem pra começo ou fim De tão preparada conversa Essa sobra de expectativa Essa falta de promessa Começar a amar e logo depois Abandonar, abandonar Essa sobra de compromisso Essa falta de compressa.

I want it

Escolher palavras Entortar estradas Tomar cachaça Tomar decisão Escolher a rota Da fuga mais próxima Saber dizer Com cautela o não Entre fios e meios Começos e pesadelos Padeço um terço De tudo em vão Tratar de correr Da água parada Saliva armada Um tropeção Sair bem cedo Deletar a memória Deixar escorrer   Lágrima sólida Na palma Da sua mão.

As senhoras Lucy e Valentine

No bolso da saia da senhora Valentine há uma carta importante, que deve ser entregue ao destinatário até as cinco horas da tarde. Já são suas horas e o sol começa a se esconder atrás de nuvens pesadas e aguadas. Ela odeia missões assim. Entregar escritos lacrados em um envelope para destinatários misteriosos é o que ela faz toda semana para a sua patroa, a senhora Lucy. A senhora Lucy é casada há dezenove anos com o senhor Alberto. Parece ser um casamento sólido, sem filhos e sem atribulações. Eles se respeitam muito e toda noite jogam cartas sobre a mesa da sala de jantar, forrada com uma toalha de feltro verde, confeccionada especialmente para tal fim. A senhora Valentine é uma empregada de confiança. Trabalha há quinze anos para o casal, que mora na mesma rua desde que se casaram. A casa não é grande, mas é confortável, com uma sala que pode receber até três casais de visita. A senhora Valentine cuida muito bem de seus afazeres domésticos, mas crê que não sabe cozinhar muito bem....