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Postagens

Um gato

De um lado para outro Rola o gato Cochilo Bigodinhos trêmulos Sonhando com aventura distante Minutos, horas Acorda com olhinhos ainda pesados Dois ou três miados Roça o gato Fome Linguinha ajeitando o pelo Querendo grãos de ração Testando a paciência do dono Volta ao cochilo Bigodinhos trêmulos Sete vidas felizes.

40

Me assusto quando me vejo No espelho Sei que tenho o corpo Caído Mas a alma Inteira Depois dos frangalhos Ajuntados Fico espantada Como encaro Frustrações Decepções E os brinquedos velozes do parque Nunca imaginei aos 40 Ser tão forte Tão cheia de cicatrizes Me vejo tão surpreendida Como se a alma estivesse ao lado Aplaudindo Da cicatriz maior, ainda trago lembranças Tatuaram por cima Beleza talvez Quarenta vividos Muitos Não só com dores E caminho Sempre E muito.

Sem magia

Coincidências me entristecem Porque vêm quase sempre com pés sujos de lama Revivendo, fuçando, forçando a porta Regurgitando reencontros Cogitando o impossível Querendo fama e olhos arregalados Odeio essas sincronias Tão assustadoras, afrontosas, extraterrenas Coincidências são cenas de novela Descabidas, arrogantes, displicentes Nada melhor que o diferente, que os disparates Em um mundo tão incrédulo, sem magia.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...

O anel de pedra vermelha

Em suas andanças diárias, Urbano encontrou, abandonado no asfalto de uma rua sem saída, um anel com pedra vermelha. Parecia feito de ouro, mas a pedra não parecia rubi. A pedra era opaca, muito estranha, de uma cor escura que o tempo surrou. O dourado resplandecia. Fora descartado por gente importante, pensava Urbano. Mas que pessoa importante frequentaria um beco sem saída com casas tão pequenas? Era noite fechada, umas dez e meia. Olhou para as janelas da rua pequena. Uma ainda estava acesa, com uma lâmpada incandescente fraca. Era a casa da dona Iva, uma velhinha costureira. Devia estar remendando algo, sentada no sofá da sala, assistindo à ultima parte do capítulo da novela. Nas outras cinco casas, as janelas estavam um breu. Dez e meia da noite, em uma terça-feira, era hora de todos estarem dormindo para enfrentar a quarta-feira. Urbano não é desses. Vive de um trabalhinho aqui e outro ali. No mais, a vida é de andanças, catando uma coisa aqui e outra ali. Um anel de pedra vermel...

Ausência

Sonhei com você Com seus cabelos curtos grisalhos Perguntando da vida Da minha E eu sem a sua Você usava uma blusa cinza Na cozinha me perguntou Como vai a vida E depois na manhã seguinte Repassei sua gargalhada sonora Mais uma vez Na minha vida Sem a sua Saudade.