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A medalha de honra do rato

Não dormi quase nada esta noite. Os ratos deste apartamento são infernais. Fazem barulho a madrugada inteira e parecem conversar em voz alta em uma festa que é só deles. Acendendo a luz, não vemos nenhum. Ao apagá-la, começa o burburinho. Pela manhã, lá estão os rastros da festança. Farelos, roídas, traços sujos. Nem adianta sair à caça. Adélio também não se anima a dar paulada em roedores. Eles são ágeis, e às vezes acredito que nem existam. Talvez sejam fantasmas, frutos de nossa imaginação moderna e já perturbada demais.
Hoje nem animo a fazer café, vou requentar o de ontem. Adélio só volta às dez da noite e vou pensar em como sobreviver a ratos com o mínimo de esforço possível. Quero me afundar em uma poltrona por horas. Aliás queria, porque a campainha acaba de tocar. Tinha que ser a vizinha chata do apartamento contíguo. Como é de costume, usa vestido preto florido cafona arrastando os chinelos como uma eterna mulher em resguardo. Terei que fazer cara de amizade, de cortesia. Não sejamos mal-educados assim logo pela manhã. Espero que não note os farelos no sofá. Ratos! Pestes pulguentas!
A ratazana se sentou, ou melhor, a vizinha Nara. O assunto era previsível, com certeza uma reclamação. E era mesmo. Nara falou por infindáveis cinquenta minutos sobre os pernilongos em seu apartamento. Eles vinham da mata mal cuidada atrás do prédio, umas pestes! Sanguessugas profissionais de uma madrugada inteira. Pernilongos e mais pernilongos e inseticidas de colocar na tomada que não prestam para nada. Eu escutando o blá, blá, blá ritmado de Nara sobre insetos sanguinários, sem falar nada sobre ratos fanfarrões. Afinal, ratos são sinônimos de sujeira, de casas imundas, de gente preguiçosa e mal cuidada. Os ratos também vinham da mata mal cuidada. Deveriam ser comparsas dos pernilongos sórdidos. Mas em meu apartamento não havia um pernilongo sequer. Ou a minha atenção já estava voltada por demais para os ratos. A ratazana, quer dizer, Nara era só monólogo. E eu é que vou saber sobre como exterminar pernilongos? Ela que mande dedetizar o apartamento porque o meu já foi dedetizado há cinco anos atrás. Talvez a data de eficiência já tenha vencido. É melhor verificar depois de o pernilongo, quer dizer, Nara, já ter ido embora. Aliás os zumbidos de pernilongo e de monólogo de vizinha em vestido cafona são bem parecidos.
Ai, meu Deus! Não acredito! Acabo de ver Nara, quero dizer, um camundongo perto do pé do sofá, que está perto do pé de Nara. Ela não pode ver esse rato imundo e maldito na minha casa. Ela vai pensar que sou preguiçosa e suja. Realmente pernilongos são mais limpos que ratos. De sobressalto e sem pensar me levanto da poltrona. Nara leva um susto e me pergunta o que aconteceu. Digo que me lembrei de um telefonema urgente que preciso dar. Não poderia ter me esquecido! E coloquei na atmosfera todo o ar de fingimento. A vizinha se despediu arrastando os chinelos, propondo nova prosa para mais tarde. Eu fechei a porta e procurei o medonho rato com meus olhos. Lá estava ele com aquele sorriso sarcástico. Ele apareceu na hora certa. Sem ele não me levantaria, não pensaria rápido, não inventaria desculpa esfarrapada para a tagarela cafona ir embora. Mas ele que não continue me olhando assim. A vassoura o aguarda. Talvez mais tarde. Agora tenho que ir ao banheiro. Acho que tenho um rato no esôfago.

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