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Azedume

Já vi uma formiga subir no capim e ele vergar
Já vi a lagartixa esperar o ônibus passar para atravessar a rua
Já vi o sino da igreja tocar e acordar o bebê da casa vizinha
Já vi gente desastrada passar perfume e deixar o frasco cair no chão
Já vi quem lia atentamente as notícias do jornal do passageiro ao lado
Já vi a chuva cair de repente quebrando o que sobrou de sombrinhas baratas
Já vi a moça no supermercado trocando preços nas latas de conserva
Já vi o vento soprar forte e bater a porta de jeito fantasmagórico
Já vi a fechadura emperrar e se consertar sozinha no dia seguinte
Já vi trem apitar de madrugada para espantar bêbado do meio dos trilhos
Já vi banda de rock ensaiar desafinada da janela do meu quarto
Já vi barata se recusando ir para o beleléu depois de sapatada potente
Já vi marcas de sangue na roupa de quem não viu
Já vi batom ter gosto de sabão apesar da cor maravilhosa
Já vi vendedora empurrando peças horrorosas pra cima de um pobre cliente
Já vi o pessoal da reciclagem empurrando carrinho pesado morro acima
Já vi pessoas que nem imaginava empurrando a vida com a barriga
Já vi, já vi, já vi
E me calei
A vida é assim mesmo, um azedume
É melhor não contrariar.

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