Nossa, que corte profundo no seu supercílio! Sangrando sem parar! Não é bom sinal. É reflexo das tantas e tantas noites que se fazem iguais nesta cidade infernal. Quantas noites mesmo até hoje? Quantas decepções mesmo até hoje? Poucas, todas, várias. Ainda hoje vi uma mulher suspeita na esquina com seu vestido de onça e bebendo em um copo pequeno algo que evaporava álcool de longe. Essas mulheres daqui não se dão o respeito. Devem ter sido concebidas em noite de Sexta-feira da Paixão, e continuarão esta sina em qualquer Sexta-feira da Paixão futura. Deus me acuda. Da janela, conto as depravações diárias. Ultrapassam cada bolota de meu terço em números vários. Cidade ordinariamente sufocante e mal frequentada. Ouço sempre o padeiro dizendo que um dia ainda pega a vizinha da frente. E esse supercílio que não para de sangrar? Isso é que dá frequentar lugares esfumaçados, de luz fraca, onde ninguém é ninguém e alguns menos ainda que a própria definição de ninguém. Neste tipo de lugar, mulheres vagabundas fazem seu teatro de sobrevivências para homens que sobrevivem em meio a goles inúmeros de álcool puro. Podem cuspir no isqueiro que fazem aquela algazarra de pirofágicos de circo. E você lá chafurdando com porcos, esquecendo a hora de voltar e sangrando como suíno abatido. Depois da festa nefasta e purulenta, em meio a seios fétidos e gordurosos, vem buscar colo na sabedoria. Com certeza nem sabe quem te fez isso, em meio a penumbra da devassidão. Acho que o esparadrapo acabou, junto com minha paciência. Lembro de seus uniformes tão pequenos no varal. Essa sua mania de vadiagem suja você herdou do safado do seu pai. Ele era assim, sempre metido nesses buracos mal vistos. Sempre metido em álcool. Sempre metido em brigas intermináveis. A cada dia um novo inimigo, uma nova ameaça, uma nova briga e mais um corte no supercílio. Eu não quero mais ver você neste estado de suíno sujo sangrante. Não quero me lembrar de curativos passados. O corte que não passa é o do coração, sabia? Eu sei. Eu me lembro. Continua apertando para parar de sangrar, sua peste desobediente. Seu menino burro. Vai herdando a burrice do papai para ver aonde você vai parar. Não quero você lá. Zona não é para você. Não quero cicatrizes várias em seu supercílio, como as de seu pai, como as dos meus próprios supercílios. Zona é realmente um lugar que não faz bem a ninguém. Nem para homens, nem para mulheres. As cicatrizes que não curam são as do coração, sabia? Eu sei muito bem disso. Não herde os supercílios de seu pai. Não herde meus próprios supercílios.
Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...
"Não quero me lembrar de curativos passados. O corte que não passa é o do coração, sabia? Eu sei. Eu me lembro. Continua apertando para parar de sangrar, sua peste desobediente."
ResponderExcluirResume tanta coisa...