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Ouço passos de tua canalhice

Ouço outros no porão da esquina
Ouço ossos em estalos na retina
Ouço passos nas veias das meninas
Ouço laços de vidas repentinas
Colo sorrisos nos quadros com cheiro de terebintina
Cada muro guarda fugas
Cada pulo guarda lutas
Cada olho guarda uvas
Cada conto guarda a chuva
Caída na palha
Caída em falhas
Morta em navalha
Eu prometi tanto
Eu chorei o teu pranto
Eu corri no teu sótão
Eu corri no teu bóton que dizia "Eu sou feliz"
Afundo no lago
Salto para o lado
Saio sem ser pago
Remo, mas não nado
Despedida querida
Pimenta ardida
No teu castanho
Sem tamanho
Minha dó de nunca te ver mais
É tua dor que me alivia
É dívida nunca paga
É dor a tua carícia
Herdo tua canalhice
Ouço passos nas veias de tua meninice
Cala-me, mata-me, oculte-me
E chama a polícia.


Comentários

  1. Ler esta poesia foi como se um fôlego preso entrasse num sufoco, e não saísse até o último verso, concluso.

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  2. Obrigada, Edu. Acompanhando seus versos também! Abraço!

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