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Um chá para o pescador arrependido

Espetei o anzol no intestino grosso da minhoca e joguei a isca para bem longe no Rio da Virada que atravessa a cidade. Esperança da fisgada. Finco a ponta da vara no chão mole e corro de volta para a pequena cidade. Corro muito. Corro de mim. Corro enfim para o tempo não morder meu calcanhar. Chego à rua onde mora a dona Cambuca. Preciso de um chá milagroso que cuide de minhas pernas bambas e meu coração afogado, desajeitado e frouxo. Sentado em seu sofá velho e esburacado, espero pela velha que aparece vestindo saia de chita démodé e um lenço encardido na cebeleira rala. Apresso a conversa:
- Preciso de um chá que me dê jeito na vida, que acalme a minha boca do estômago e me faça dormir por horas a fio durante as madrugada de lua sinistra. Meus medos sempre me injetam suores congelados e garganta desértica. O que posso fazer, dona Cambuca? Seu cachimbo sempre pendendo para o lado esquerdo é uma premonição?
- Não há chá que te trague solução e se trago pela esquerda é vício, e por ti não tenho compaixão. Fique atento às tuas pegadas. Fique te olho nas fisgadas. Nem por um decreto de São Judas eu te penso um chá milagroso. Pode pagar teu baú inteiro de moedas amarelas que teu caráter não preenche nem um fundo de dedal amassado.
- Não vim fazer análise, vim te pagar por chá que me cure a dor do parto repassado das veias da minha mãe para dentro de peito esquálido. Meu baú de moedas deve estar lá, debaixo da ponta do arco-íris, mas o que trago comigo te paga bem, sua velha de roupa antiquada.
- Pense bem nos teus caminhos empedrados percorridos na cidade grande, lembra das decepções que sempre embrulhava em celofane e entregava às tuas queridas, preferidas de uma noitada só. Você injetou lágrima nos buracos dos olhos de muita gente. Não me venha pedir cura, seu insano. Arrasta as solas dos teus sapatos para longe do tapete da minha casa. O chá que te receito é o de cicuta, que o filósofo grego tomou no dia de sua condenação.
Apressei a conversa, agora apresso o passo. Como aquela velha trabalhada na chita, ignorante de banco de escola, sabe sobre filósofos, Grécia e sofismas? Ela tem uma biblioteca enterrada debaixo da tapera? E quem lê os livros pra ela? Dona Cambuca só pode ser um fantasma vagando na penumbra das noites que me assombram em insônias sangrentas.
Corro muito. Corro de mim. Corro enfim para o tempo não morder meu calcanhar.Vou para a margem do Rio da Virada. Pego a vara de pesca, tiro a minhoca lavada do rio. Desfaço a isca. Desfaço a pesca inteira. Ajoelho e peço perdão a São Judas (quem foi São Judas mesmo?). Subo o barranco barrento, correndo, correndo. O medo já me injetou o suor congelado. Volto para as ruas de pedra da pequena cidade do tamanho da lua cheia. Eu sou pequeno. Eu matei muitos. Eu sou pescador de meus arrependimentos. Quero chá de assa-peixe para curar minhas urticárias mansas.

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