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Guardados de Maria Eulália - relatos

As pessoas são todas iguais. Desejam as mesmas coisas. Se contorcem pelos mesmos motivos torpes. Merde! Mais um livro, mais uma bobagem escrita, mais uma vez um salto de paraquedas frustrado. Não raspei o creme de leite no final da taça da sobremesa e ficou comigo aquela vontade. Um 'não sei o que', um 'qualquer pessoa sabe'. E goteiras e mais goteiras sobre a minha cama.
No outro livro que abro o cheiro de mofo me intoxica. Como o cheiro daquelas caixas que guardo embaixo da cama e sobre meus pensamentos de infância. A vida adulta não tem as cores da árvore de Natal, e isso me entristeceu depois da chegada de tantos e tantos anos novos. Foi tudo tão bom naquela tarde que bebemos suco de laranja e você parou de fumar. Depois daquele dia, minha vida tomou tantos rumos inesperados. Me apaixonei ainda pelo vendedor de vinis velhos que ficava no final da avenida. Tão culto, tão jovem, tão mais um qualquer. Dei meia volta. Pataquadas.
De bolsa no ombro, mundo sobre os ombros e dando de ombros a você que chorou tanto no meu ombro. Decidi ser fria e mudar o tom dos livros da minha estante. Mudei também todos os rumos de sábado à noite. Eu sempre achava que aquele carinha que passava na minha frente em todas as festas era meu príncipe encantado. Pois bem. Vou te contar uma verdade. Quando jovem, rabiscava minhas bobagens e as guardava em caixas de sapato debaixo da minha cama. Os papéis ficavam sob outros tantos papéis de conteúdo aborrecido. Para enganar. Mas eu sempre achava que tinha alguém lendo. Sempre cruzavam meu caminho aqueles esboços de humanidade chata, com os quais eu precisava conviver. Escolhia sempre o menos pior e me convencia de que gostava dele. E a ele eu dedicava meus rabiscos que se empilhavam na poeira de submundo debaixo do colchão, meu porão acima do chão.
Minhas vertigens ganharam formas muito tempo depois. Passei não a dedicar rabiscos, mas passei a conversar tête-à-tête com cada esboço da humanidade, de cabeça erguida, batom vermelho nos lábios e perfume forte em cada junta do corpo. Ah, as coisas não mudaram muito. Eu queria de volta minha crença de que meus rabiscos escondidos depois do estrado da cama tinham poder e significado. Rezar para anjos era moda quando eu era mais jovem. Nem preciso dizer o que fazia quando estava sozinha em casa. Todos eles deviam estar sempre preocupados com o farfalhar das suas asas brancas. Nunca vi nem sombra das suas penas.
E daí os dias passam e o acreditar que o depois será o melhor momento da vida me preenche e me aniquila. É minha cachacinha de banana, água mole em pedra dura. De tantas pegadas que vejo, não reconheço nem a minha. Se eu voltar a rabiscar os meus sonhos hoje, eles não preencherão nem cinco linhas de folha de caderno. Nem me aniquilarão. Arlequim de um pé só, sem maquiagem.
Todas as pessoas são iguais nesse mundo. Dão sua própria vida e a tiram por motivos vários. Sejamos razoáveis. O pôr-do-sol não será na praia do lado hoje. Quem sabe o sol não volte nunca mais lá do Japão. Tanta coisa para escrever e a tinta da caneta acaba. Merde! Alguém mexeu nas minhas caixas de novo. Alguém mexeu nas minhas coxas de novo. Eu quero que um anjo venha me salvar agora trazendo uma caixa de canetas pretas e uma caixa de ameixas pretas. Mas agora eu vou raspar, sim, o creme de leite que sobrar.

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