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É labirinto

Labirinto escuro de paredes enormes e lisas. Tateio fundo cada pedaço de cada centímetro esperando que a voz das minhas digitais chegue ao outro lado. Sinto que nada faz sentido em corredores eternos. Estradas inventadas. Pessoas desconhecidas. Esquinas premeditadas. Sonhos acordados. Língua morta. Ouvido vivo. Percalço que eu mesma faço em cada amanhecer. Dobro à direita. Dobro à esquerda. Tanto faz. É labirinto. Todos os dias são os mesmos. Todas as auroras têm o mesmo sabor de paetê descolorido de fantasias jogadas no lixo. A cada fim do dia o sol se vai como se fosse uma despedida para um voo sem volta. Sou garça sem graça de pernas finas e asas cortadas. Sem seu chá favorito de hortelã e nozes podres. É labirinto. Encostada em uma das eternas paredes sujas que viram ruas sem pausa. Traço planos. Imagino metas. Penso no que os outros fazem de interessante lá fora. Aqui a temperatura é sempre a mesma e ouço meus próprios passos como se fossem de outros. Se o outro chegar, confesso que ficarei aborrecida. Labirinto e solidão são palavras que se encaixam perfeitamente. Uma nasceu para estar colada à outra. Matrimônio antigo e sem fim. Quem sabe do lado de fora todos estejam festejando o fim dos dias e a chegada de uma nova era. Labirinto não tem janelas, não tem portas, não tem teto, não tem quadros, não tem luminária, não tem lençóis limpos, não tem fronha marcada, não tem chão encerado, não tem campainha, não tem badalada de relógio, não tem bolo no forno, não tem carta por debaixo da porta, não tem visitas, não tem gargalhadas, não tem aperto de mão, não tem água nas plantas, não tem roupa no varal, não tem pó nos móveis, não tem ursinho de pelúcia nas prateleiras, não tem porta-retratos, não tem rostos, não tem memórias, não tem toques telefônicos, não tem vizinhos, não tem outro lado, não tem, não é. O lado de fora me sufoca, mesmo estando em labirinto. Percorro dias e noites e eles são todos iguais. Tentei morar em umas de suas esquinas fixas. Como se todo o resto fosse rua, uma cidade inteira. Labirinto a céu aberto. Labirinto a céu fechado. Desisti. Tanto faz. É labirinto. Aqui dentro ou aí fora. Dentro ou fora da gente mesmo. Sendo gente ou não sendo. Labirinto é tanta coisa. Labirinto não é romântico. Não é brincadeira. Não tem mapas. Não tem tesouros. Sou filha dele até o fim dos dias e a chegada da primavera. Até a chegada de todas as minhas primas. Que cada um saboreie seu labirinto. O meu eu admito que tenho. Ele não tem cor. Ele não tem quase nada. Procuro a saída por muitas noites e dias. Enquanto isso fixo meu pouso em uma de suas esquinas. Iguais. É labirinto. Pés sangram. É labirinto. A gente nasce. É labirinto. A gente luta. É labirinto. Encontro a saída. É labirinto. A gente morre. É absinto.

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