Pular para o conteúdo principal

Assassinato rápido

Não conte a ninguém 
Mas o dia nasceu
Com uma hora a menos
Se você contar a alguém
O dia não será o mesmo
Haverá uma pessoa a menos
No dia em que você nasceu
Eu não contei a ninguém
Não conte a ninguém 
Sobre o que conversamos ontem
O dia foi forte
E cheio de sorvetes
Não conte a ninguém
Porque essa uma hora a menos
Do dia imperfeito
É minha salvação
Havia muita gente
Ninguém percebeu
Uma hora a menos 
É o de menos
Não posso contar a ninguém
Mas ontem te confessei
Entre sorvetes
O dia nasceu manco
Sem uma hora de sol quente
Então não conte a ninguém
Porque este intervalo 
De uma hora
Fez de mim alguém diferente
Guardo segredos de uma hora
Foi ontem
Te confessei
Não conte a ninguém
Em uma hora dá e sobra
Para matar a seco
Os desejos de alguém.

Não conte a ninguém.
Não conte a ninguém.

Comentários

  1. Muito bom! Adoro as suas escolhas de palavras. Mais um ótimo texto imperdoável!

    ResponderExcluir
  2. Obrigada! O que eu mais gosto de fazer é brincar com elas, as palavras! Abraço! :)

    ResponderExcluir
  3. Munique, a maneira como tece seus poemas me faz lembrar uns versos de Fernando Pessoa: "Palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas"
    Um abraço fraterno

    ResponderExcluir
  4. Olá!!!
    Adorei seu blog, ele me parece ser totalmente verdadeiro. O que escreve é maravilhoso.

    Estou seguindo.

    Bjim.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...