Cartazes de filmes velhos para todos os lados e a certeza que as nuvens não correrão no céu hoje. Amanhã Cícero deve dar uma olhada na janela da vida e tomar aquelas providências necessárias. Talvez corte o cabelo e faça a barba, talvez resolva comer coisas mais saudáveis, talvez resolva esperar a quaresmeira cair as folhas para começar a mostrar as suas próprias, mais verdes e encorpadas. Não vê muita novidade em horas ou dias futuros, mas toda a tralha já amontoada em seu pequeno quarto trazia náuseas da caixa fétida chamada memória.
Quantas vezes ainda se imaginava menino guardando suas primeiras caixas de sapato. Era tão difícil conseguir uma. Sapatos eram caros. E a humanidade inteira pensava antes dele o que fazer com elas. Quando juntou duas, que alegria. Depois começou com as latas de sardinha. E as de azeite também. Os frascos plásticos de mostarda, condicionador e gel eram uma tentação. Tinha uma caixa pequena de remédio lotada de grampos velhos. Caixas de remédios Cícero tinha aos montes! E de fósforos. Uma era especial, a que seu tio havia trazido de um hotel três estrelas do Rio de Janeiro. Amontoava calendários passados, revistas mofadas, jornais desintegrados, tampinhas de pasta de dente. Lamentava a perda do tubo de leite condensado que era igual ao das pastas de dente. Bijuterias antigas, embalagens de batom, tocos de lápis.
Era o seu arsenal de memórias que não gastou dez centavos ao juntar. Agora o rançoso desfazer dando o ar da graça. 123 potes de margarinas empilhados milimetricamente. Pensava nas tardes alaranjadas de fim de outono. A luz amarela adormecendo sobre as laranjeiras do quintal. Uma enorme mangueira velha enrolada lembrava a velha vizinha aguando as plantas. Vidros de geleia com tampas coloridas. Vidros de perfumes e tantas memórias. Quando espatifava um, Cícero colocava as suas lágrimas doídas para pingar. Não tinha amigos. Para que amigos quando se tem memória saindo pelo ladrão? Personificada em cada lâmpada queimada que fora trocada, em cada caixote achado em fim de feira, em molduras de quadro abandonadas em lixo alheio.
Memórias não recicladas. Juntas, um castelo enorme, asfixiante. Escolher algumas para ficar de lembrança e descartar todo o resto. Ao ver tudo aquilo que juntou em tantos anos, Cícero começou a sentir frequentemente pontadas no coração por excesso de saudade. Fora o que ele de fato não viveu. Fora que a pilha era apito certo para ratos. Fora que seu quarto era uma enorme coleção de chaveiros pregados na parede. Fora que ele dormia no chão. A cama era lugar para a coleção de latas de refrigerante e cerveja, mesmo já desbotadas por aquele conhecido sol laranja.
Escolher apenas poucas peças e se livrar de tudo. Dali em diante nascer para a vida. Parar de juntar cacos de memórias que não valem os ratos roendo suas roupas. Noites sem dormir. Folheando os almanaques cheios de rinites; alisando pelúcias encardidas; relendo cartas sem volta; verificando moedas sem troco; chorando com os carrinhos abandonados por seres de fraldas ingratos. Montanha gigante. Montanha má. Engolidora de sensíveis. Encharcada pelos seus olhos. Enfumaçada de ódio. Montanha imensa indescritível. De lixos, mágoas, ferros contorcidos, plásticos pegajosos, papéis desaparecidos. Um amontoado só. Único. Fétido. Irreconhecível. Acabou. Sem agonias. Asas a Cícero. Ele não poderia viver sem seus amigos colecionáveis.
Quantas vezes ainda se imaginava menino guardando suas primeiras caixas de sapato. Era tão difícil conseguir uma. Sapatos eram caros. E a humanidade inteira pensava antes dele o que fazer com elas. Quando juntou duas, que alegria. Depois começou com as latas de sardinha. E as de azeite também. Os frascos plásticos de mostarda, condicionador e gel eram uma tentação. Tinha uma caixa pequena de remédio lotada de grampos velhos. Caixas de remédios Cícero tinha aos montes! E de fósforos. Uma era especial, a que seu tio havia trazido de um hotel três estrelas do Rio de Janeiro. Amontoava calendários passados, revistas mofadas, jornais desintegrados, tampinhas de pasta de dente. Lamentava a perda do tubo de leite condensado que era igual ao das pastas de dente. Bijuterias antigas, embalagens de batom, tocos de lápis.
Era o seu arsenal de memórias que não gastou dez centavos ao juntar. Agora o rançoso desfazer dando o ar da graça. 123 potes de margarinas empilhados milimetricamente. Pensava nas tardes alaranjadas de fim de outono. A luz amarela adormecendo sobre as laranjeiras do quintal. Uma enorme mangueira velha enrolada lembrava a velha vizinha aguando as plantas. Vidros de geleia com tampas coloridas. Vidros de perfumes e tantas memórias. Quando espatifava um, Cícero colocava as suas lágrimas doídas para pingar. Não tinha amigos. Para que amigos quando se tem memória saindo pelo ladrão? Personificada em cada lâmpada queimada que fora trocada, em cada caixote achado em fim de feira, em molduras de quadro abandonadas em lixo alheio.
Memórias não recicladas. Juntas, um castelo enorme, asfixiante. Escolher algumas para ficar de lembrança e descartar todo o resto. Ao ver tudo aquilo que juntou em tantos anos, Cícero começou a sentir frequentemente pontadas no coração por excesso de saudade. Fora o que ele de fato não viveu. Fora que a pilha era apito certo para ratos. Fora que seu quarto era uma enorme coleção de chaveiros pregados na parede. Fora que ele dormia no chão. A cama era lugar para a coleção de latas de refrigerante e cerveja, mesmo já desbotadas por aquele conhecido sol laranja.
Escolher apenas poucas peças e se livrar de tudo. Dali em diante nascer para a vida. Parar de juntar cacos de memórias que não valem os ratos roendo suas roupas. Noites sem dormir. Folheando os almanaques cheios de rinites; alisando pelúcias encardidas; relendo cartas sem volta; verificando moedas sem troco; chorando com os carrinhos abandonados por seres de fraldas ingratos. Montanha gigante. Montanha má. Engolidora de sensíveis. Encharcada pelos seus olhos. Enfumaçada de ódio. Montanha imensa indescritível. De lixos, mágoas, ferros contorcidos, plásticos pegajosos, papéis desaparecidos. Um amontoado só. Único. Fétido. Irreconhecível. Acabou. Sem agonias. Asas a Cícero. Ele não poderia viver sem seus amigos colecionáveis.
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