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Janela aberta

O laço apertou tanto que nem a unha aguentava desatar. Fio umbilical tenso. Esticado sobre pontes duvidosas. Olhar apaixonado acreditando no sempre. Quantas horas cabem no sempre? Quantas manhãs cabem em um sim? Reinventar a criatividade mórbida.
Amanhece o dia e a certeza dormiu do lado de fora. Menina traiçoeira. Entre a cara feia e a cara de vingança, ficou com a de desprezo, porque o dia seria imenso, bem do tamanho das obviedades. Ficaria horas maquinando palavras, distorcendo-as com alicate, engraxando as pontuações, cortando com tesoura enorme de jardim os excessos que não deveria cometer durante o dia. Ele não poderia perceber. Mas ele nunca percebe nada. É um buda sentado olhando eternamente para o próprio umbigo.
Lágrimas de lado. Era a hora de desafogar as memórias torpes. Exercitar os punhais do mundo mágico do tempo perdido. Era a quarta tentativa. Afogando, respirando, tentando e frustrando. Laço cada vez mais reprimido. Todos os cafés foram mudos depois de dois anos de laço atado. Todas as tardes foram mornas e salobras. Todas as noites foram com cheiro de cipreste e cítricos apodrecidos. Nuvens imensas de insetos.
Ele observou demais o lado de fora e esqueceu a janela aberta. Depois a porta. Depois o coração foi coagulando e despertando a vontade de sair pelo porão sob o olhar de um relâmpago perdido.
Sem perder a luz. Sem perder o foco. O trem já havia apitado a partida. Fantasiada de muito medo. Os olhos estavam salgados e doíam. Os pés estavam descalços e gelados. Os ouvidos atentos aos erros. Fantasmas com suas frases marcadas a rodeavam. Depois de dois anos, nada valeu muito a pena. Foi difícil e não valeu a pena.
Diante dos olhos de plateia reduzida ele parecia correto. Romã com casca saudável. Exalava perfeição naquele fim de tarde já um pouco desatualizado. O relógio não parou no tempo. E o tempo foi mensageiro veloz e estacionou num presente leitoso terrível.
O trem apita na estação. É hora no relógio sagaz. Maracujás podres. Olhar em frente. Ela tentou avisar os poucos que ainda se preocupavam. Tentou deixar cartas, mas rasgou todas. Tentou ser breve, mas não conseguiu. O tempo sempre ganhava nas voltas do circuito. O laço apertado a unha não desatou. O dente inclinado pra frente também não. Nem a ponta da caneta.
No chão ela contou os pedaços. Seis de tamanhos diferentes. O laço desfeito. Ele não iria desconfiar.
Dali em diante, de fato, ele era passado. Não faria mais nada. Cheiro salobro no ar. A romã não cumpriu o papel das atitudes todas e várias que cabem em um sim. A romã agora era pedaços e o escrúpulo saltou pela janela aberta.

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