Ela ficaria sentada naquele sofá cor-de-bactéria por muito tempo. Assim estava decidido, sem pesares. Ficar sobre o sofá até os dias ficarem um pouco mais degustáveis. Sobre o sofá há espaço. Pode estar deitada, sentada, com pernas esticadas, pulando em pé sobre ele, assim mesmo, meio debiloide, meio esquecida, meio lembrada. Sob a luz daquele momento, prefere ser esquecida. Sobre o sofá magro não há impertinências, insalubridades, decepções, encontros malfadados, inquietações, ameaças de sol quente. Sobre o sofá ela pode flutuar como em um tapete mágico, dormir como em uma choupana acolhedora, acordar como em um conto de duendes saudáveis. Pode conversar à vontade com as paredes, tecer comentários íntimos, destroçar os desafetos, treinar a língua para as grandes declarações de amor futuras. Que nunca acontecerão. Quando pensa no futuro, sente aquela pontada. Dá aquela vontade de ranger os dentes e desbravar as matas. Desafiar os mundos e prometer mudanças. E praticar as mudanças. Mas agora, volta ao sofá de mansinho. Volta sem nunca ter saído dele. Suas companheiras almofadas sabem bem dos duendes saudáveis. De todos os seus sonhos e desvelos. Porque todo o sofá é assim, pequeno, estranho, aconchegante, sujo e indiscreto. Concorrido. É uma cidade. É o mundo. Recebe e se despede. E, quando é ilha que abriga covardes, é mais desafiador ainda. O sofá cor-de-bactéria é ilha da pobre que promete e nunca cumpre. É testemunha já cansada de suas lágrimas repetidas, repetidas. Ela sente o braço fino do sofá raspando o lodo da parede estreita de um poço fundo e sem fim. Sem fim. Onde termina o sofá? Onde começa o sofá? Debaixo dele tudo o que já foi esquecido. Formigas mortas, restos de comida, fiapos perdidos, aranhas barrigudas, vontades enormes, sonhos adiados. Para ela sonhar demanda esforço. E o sofá é para os fracos. Delícia cor-de-bactéria. Gruda feito chiclete azul que explode surpresas no céu da boca. Sofá flutuante onde pensará nos próximos dias como sair dele e enfrentar a careta carrancuda da rua suja cinza-bactéria. Porque esse dia chegará e o sofá já estará insuportavelmente manchado de ketchup, refrigerante maldito e desculpas esfarrapadas. Quando ela sair de lá o dia não será diferente, nem florido, e muito menos aceitável. Ela já estará cor-de-bactéria relendo seu poema favorito:
Nada mudou
Desde que estive aqui
Navegando contra marés
E sem poder rir
Sem poder dizer
Que só queria a metade
Do sorriso amarelo
Daquele transeunte que atravessa
Na minha frente
E a outra metade
Daquele sorriso amarelo que vi
No espelho hoje de manhã
Junto a arranhões
Rir é para quem?
As migalhas dos meus dentes
Estão sobre as suas decisões.
Nada mudou
Desde que estive aqui
Navegando contra marés
E sem poder rir
Sem poder dizer
Que só queria a metade
Do sorriso amarelo
Daquele transeunte que atravessa
Na minha frente
E a outra metade
Daquele sorriso amarelo que vi
No espelho hoje de manhã
Junto a arranhões
Rir é para quem?
As migalhas dos meus dentes
Estão sobre as suas decisões.
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