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Papel de parede

Que café horrível. Qualquer bebida é horrível tomada naquele apartamento de papel de parede rosa morno. O café estava frio. E no meio da hora chega aquele pensamento que o relógio ganhou peso de chumbo nos ponteiros e que as horas não correm o quanto o coração aguenta. Noites de paetês e mazelas. De líquidos vermelhos amargos. O que fascinava era o azul da voz. A fumaça por todos os poros. O amanhecer incerto sobre mais uma ou menos uma página de caderno.
Se um não procura, o outro não acha, e assim ela sempre caminhava empurrando o ponteiro do relógio para acelerar a agonia. Não queria mais ver o rosto da mesma pessoa em todos os pratos, copos, talheres, quadros e tapetes da casa. Pranto. Armadilha. Quanta mesma coisa em um dia só de agosto quente.
Acelerada, anda rápido pelas ruas, foge, busca refúgio. Em pratos diferentes de ares modificados vê o mesmo rosto que não sai de dentro das veias. Teia. Difícil. Corre até sentir as pernas pesadas. Cansada imagina saída por portas fáceis, projetadas por quem já viveu o mesmo dilema. A resposta é não. Grão. Pequena se sente em meio às horas que não passam e não trazem o outro lado do questionário.
Papel de parede de novo. Quer acinzentar tudo. Telefone. Covardia. Toques e mais toques. Quer adiar a felicidade ou desfazer o coração. Não atende. Se cansa. Promete na próxima noite se aproximar da primeira voz azul quando a fumaça já tiver entrado e saído por todos os poros. Porcos. Todos não valiam nada e ela queria sentir tudo, todos.
Promessa. Difícil. Papel de parede. Café terrível. Noites que não passam. Se lembrou do porta-jóias pequeno que ainda tinha. Nada de bailarinas e músicas irritantes. Nada de romantismo. Não tem tempo para isso. O objetivo é tingir a memória azul de cor cinza. Pavimentar. Elementar. O que tira primeiro é o anel de pedra verde terrível, como o café. Ele tornou tudo feio na cena. Agora colar de pérola repetitivo. Brincos dourados demais, prateados demais, escuros demais, grandes demais, bobos demais. Todos. Assim, são todos inadequados. Pedras de todas as cores. Não, de poucas cores. A voz azul. Repetição.
Entorna tudo sobre a colcha mal lavada da cama. Espalha todas as jóias com as mãos. Tudo tão conhecido. Um pingente enorme de pedra azul. Azul. Azul. Azul. Voz.
Espalha tudo de novo e procura. Acha. Da cor do papel de parede. Rosa desbotado. Inadequado, perfeito. O relógio perdeu o peso de chumbo. Pássaros livres pousam na janela. Livre. Livro. Assim mesmo, como naquele livro. Lindo broche de pedra rosa. Feminino. Solução. Soluços. Enfim.
Adorava o azul da voz dele. Agora adora o rosa da voz de quem chegar. A noite chegará logo. O relógio está livre. Ela também, feito rosa quente.

Comentários

  1. Adorei o texto, e também todos os outros.
    Você escreve muito bem :)
    Beijos

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