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Lágrima verde

Tudo era mais verde visto pela janela. Todas as vezes que alguém saía de casa, o espaço se agigantava e as flores respiravam. Não saiu aquele dia. Quis espiar o colorido do dia pelas horas intermináveis, transeuntes de uma rua só. Nada de músicas, de ler livros. Poeira, muita poeira, poeira por todos os lados e dentro de si mesma, com a vontade de se travestir de canção verde e sair por aí, sabendo que o mundo é composto de duas voltas.
Campainha e nada de atendê-la. O dia é das horas, das poeiras, das lembranças confusas, dos livros embolorados, das falas engasgadas, dos fatos embolados, feito fita cassete que se desmantelou na hora errada. Ao olhar pelo olho mágico sempre tinha a sensação de que a pessoa do outro lado conseguia ver lá dentro. Era a chatice de sempre, batendo à porta, buscando abrigo, depois de muitas pisadelas em suas virtudes. Como é ruim atender gente sem noção do ferimento alheio. Caridade espeta. Abriu a porta.
Lágrimas. Olhos cheios de sentimentos terríveis. Palavras entrecortadas. Painéis e mais painéis se abrindo na sua frente. Colocou a caridade sentada um pouquinho lendo gibis lá na cozinha enquanto conversava seriamente com a entidade lacrimejante. Não lacrimejou junto. Sentiu-se tola dizendo algumas abobrinhas em contrapartida às batatadas ouvidas. Tudo mecanizado. Tchau. Até logo.
Porta fechada e amizade rompida por muitos séculos. Ela nem percebeu o fim. Lacrimejou um caminhão intenso e gordo. Patacoadas. Merde. A casa voltou ao verde anterior, depois de todos que saíram para cumprir suas mazelas. Ficou de novo só, contando os livros mofados na estante. Pensando, pensando, sem a xícara de café intelectualesca.
Pensou muito, sem agonizar. Como pessoas entram e saem, e não deixam a casa limpa, com cheiro limpo de verde. Viram as costas e se vão, como marés. Os estragos são sempre grandes, e as marés nem se importam. Tecendo teias, desmanchando teias, tecendo todas as teias de novo. E que não venham à casa solitária pessoas com seus xales angustiantes.
Dali em diante, nenhuma pessoa bateu mais à porta desse ser que não lacrimeja mais. Ficou sem graça. Não tinha dor para ser espelho da dor, para diminuir a dor e mostrar que dor é lugar-comum. A humanidade odeia os fortes. Não olhou nunca mais pelo olho mágico. Quanta mágica ficar ali sozinha, sem sair, quando todos e suas echarpes farfalhantes saíam cheirando à perfume da moda. Que bom que era cheirar livro mofado, até que a fita cassete se desmantelasse de novo em meio a uma maré enorme.
O verde visto da janela era revigorante. E o seu lacrimejar murado muito mais.

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