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A hipnotizadora

Tampou a caixa e a guardou debaixo da cama no quarto iluminado pela lâmpada amarela. Lá do outro lado da rua se podia ver a janela com cortinas rosadas sendo iluminada pelo sol pequeno. O movimento da caixa sendo colocada debaixo da cama era claro. Reservar os segredos antes que a mãe viesse lhe fazer perguntas enormes e impalpáveis. Romãs de longa data. Havia perdido quantos dias guardava cuidadosamente o feito em caixa de sapato. Dizia-se a melhor de todas as hipnotizadoras. Era estátua brilhante com os olhos fixos no adversário. Já havia derrubado titãs em meio a selvas escuras. Sonhando sempre ao som do rádio, no quarto aquecido pelo pequeno sol. O troféu da última hipnose estava a salvo. Agora tinha uma prova. Sua mãe e a humanidade inteira de suas memórias não duvidariam. Era insana, mas era de palavra. As cortinas rosas não condiziam com seu temperamento. Lia sempre muitos livros sobre como paralisar pessoas com a mente. Mas no fundo ela sabia que havia nascido com o dom. Sabia fazer o tempo virar pedra quando bem desejasse. A mãe quis interná-la há pouco tempo. Da janela do outro lado da rua sua mãe parecia uma medusa com humor de granizo. Nunca sorria. O sol do quarto ficava esbranquiçado feito múmia com sua chegada. Era fria. Talvez hipnotizada pelo amargo dos anos. A filha nunca a olhava diretamente nos olhos. Tinha medo de seu poder voraz causar danos. Lia muito, mas sabia que havia nascido com o dom. Conferiu mais uma vez a caixa debaixo da cama. Quase meia-noite. Sono, a hipnose justa trazida pelo dia. Chuva mansa. Horas e mais horas passando pelos ponteiros magros. Migalhas de areia. Um líquido escuro começou a vazar da caixa. Escorreu até a porta do quarto. Na madrugada, conferiu se estava tudo em ordem. Passou papel higiênico pelo chão. Aquilo era um aviso. Que a hora de mostrar a verdade à medusa de língua áspera estava batendo à porta com seus ponteiros ameaçadores. Libertar-se com a verdade. Hipnotizava sim, e não era nascida para o manicômio. Medusa insensível. Cortinas rosas estáticas com o fechar final da janela. O sol pequeno aceso na madrugada não permitiu que se percebesse muita coisa lá do outro lado da rua. Reforçou o forro da caixa com outra sacola plástica. A hora chegada arfando o hálito crespo da pressa. Não podia pensar muito. O conteúdo da caixa perecia. O dia amanhecia. Coragem se escoou pelo ralo. Ainda não era o momento. Ainda não podia provar a realidade. Guardava o minuto da confissão como se fossem doces raros a serem deliciados. Janela pequena que não demonstrava a angústia da desacreditada. Dias contados talvez para a clínica psiquiátrica. Era preciso fazer tudo com calma. A caça foi rude. Passou a conferir a caixa quase que de hora em hora. Mais uma lua se aproximava. Comer os doces no dia seguinte ouvindo os fogos de artifício. Sangrar a medusa até o fim. No passar da madrugada, o líquido escuro, calado durante o dia, escorreu à noite. Passou pela porta do quarto, tomou o corredor, avançou pela escada, desceu os degraus, atravessou a sala, tomou a rua. No dia seguinte a mãe era berros e alvoroços. A maldita filha emporcalhava a casa guardando a loucura em uma caixa de sapato debaixo da cama. Não era para ser assim. Desafiou o tempo, retardou, e os ponteiros afiados a alcançaram. A janela não é grande e as cortinas rosas atrapalharam tudo. Gritos, como em um filme de terror. Levaram-na para longe. Ela não pôde dar as devidas explicações. Sangue por toda a casa para a medusa lamber com seu ódio. A caça foi dura. Foi longa. Foi severa. Ninguém concatenou os fatos. Ela havia fugido de chifres, hipnotizado um gigante, rasgado seu peito e provaria dali em diante que tinha o dom. Enfrentou uma fúria e havia vencido. Não era nascida para manicômio. O relógio sorria agora com seus ponteiros fúnebres.

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