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A lenda de um cavaleiro comum

A velocidade era a de pequena abelha feroz, querendo salvar o que traz no coração lambuzado e doce. Folhas secas ao ar. Solo maltratado pelos cascos do cavalo-touro de ventas bufando vapor. Duas, três, dez, centenas de árvores ficavam pra trás. Queria ter nascido outra pessoa, ter outra história, outro sobrenome. Quem sabe trotando em linha reta saltaria no oceano para viver pra sempre como cavalo-marinho. Pra ser anônimo e esquecido no fundo do mar. Deixar o passado junto com as árvores e cada sentimento misturado com a poeira levantada. Pó. Tudo deveria ser pó.
Cascos raspando o solo. Cada vez mais rápido. Lágrimas se evaporavam em contato com a rapidez. Para que ninguém as visse. Depois de horas, o corpo pedia repouso. A vida pedia parada. O mar era longe. Cavalo-marinho e sereias deveriam esperar o encontro para mais tarde. Os músculos desaceleraram. Vinte, onze, três, uma árvore. Ficou ainda olhando fixo o restante da estrada em meio à poeira deixada pelas últimas trotadas. O coração parecia parado. O rosto tinha se endurecido pelas camadas de lágrimas secas. Ninguém por nenhuma parte. Se quisesse voltar, a estrada teria léguas incontáveis. Paisagem profunda de árvores gigantes, seculares, que achariam a história dele mais uma lenda chinfrim de qualquer aldeia. Aldeias inventam histórias porque seus habitantes não possuem o cavalo-touro que cavalga até saltar na água salgada plena de conforto e falta de memórias.
Caminhou e sentiu sede e pernas cambaleantes. Seguia a pé sem a velocidade do cometa. Seguia com o rosto petrificado. O vento era brando nas orelhas vermelhas e geladas. O cheiro forte de terra remexida estava em toda parte. Caminhando com os pés dormentes, escutou um barulho de água. Mas não era a do mar reconfortante de Netuno. Era doce como as abelhas velozes. Não conseguiu ver o próprio reflexo na água turva. O lago era escuro. Petrificado como a face de quem sofreu muito. Uma árvore estava caída sobre o espelho d'água. As folhas se moviam lentamente como cabelos compridos molhados. Frio, escuridão, arrepios.
Ainda por perto o cavalo-touro deixou o aviso da tempestade num relincho agudo. Ele não tinha mais forças para encontrar o oceano. Queria ter nascido outra pessoa, ter outra história, outro sobrenome. Nada de sereias ou cavalo-marinho. Fim da estrada com centena de árvores. Mergulhou profundo na escuridão. Ficou ali até as orelhas se acinzentarem. Até o cavalo-touro ser pó. Até a aldeia inventar a lenda que amar pessoas que não se devem amar por semelhança dos sexos atrai uma grande maldição, tornar-se para sempre uma enorme criatura com ventas de touro e cabelo de folhas, que solta pela boca o mel mais amargo já visto em toda a região.

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