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A última noite do mágico

Mais um dia de espetáculo. Mais cortinas se abrindo. Hoje o mágico acordou de mau humor. Necessitava mudar o show, as cartolas e os coelhos. Fazer a pomba branquinha de algodão se transformar em um tigre faminto ou a rosa toda viçosa pegar fogo e virar um ramalhete de dezessete unidades. Trocar as roupas, as cortinas, as varinhas mágicas, as águas que nunca escapam, as labaredas que nunca queimam, as feridas que nunca doem. A assistente Camile era linda. Surda de nascença e com um rosto inegavelmente perfeito. Era mais que sua amiga. Era sua irmã e eles se entendiam muito bem. As magias eram dele, a beleza perfumando o espetáculo era dela.
Fez desaparecer três pombinhas dentro da gaiola minúscula. Com rapidez para confundir a plateia. Aplausos fracos. Fez surgir entre os dedos bolinhas vermelhas que vinham do nada. As mangas arregaçadas para mostrar o jogo limpo. A cada dia que passava o público era mais exigente e a concorrência pululava em cada esquina. Centenas de espetáculos mágicos aconteciam ao mesmo tempo que o dele. A preocupação enrugava a testa e nunca apagava o sorriso penetrante de Camile. A cada dia as cadeiras ficavam mais vazias. O coração de mágico murchava em cada aplauso fantasmagórico. Quem sabe um coelho azul da próxima vez. Um sombreiro no lugar da cartola. Garças no lugar das pombinhas. Pobrezinhas.
Começou a contar nos dedos o público presente. A cada noite, as cortinas revelavam um mágico cada vez mais pálido e desconcertado. Nunca errava os truques, aprendidos desde criança. Mas sempre o coração murcho se acelerava ao contar os minutos para o fim do espetáculo. Quando tudo terminava, era o alívio da mais árdua canção já tocada. Glória em decadência. Camile não desmontava nunca o sorriso. Queria ser como ela na impecável confiança do dia seguinte. Ele imaginava desaparecer helicópteros, hipnotizar hipopótamos em um lago artificial, criar um número triunfal de homem-bala mais veloz do mundo. Dormia todas as noites com o coração desmantelado.
Um novo dia despontava sem expectativas. Camile era a mesma com seu riso fácil de pérolas perfeitas. Decidiu não inovar nada. Era só mais um dia. Foi fácil contar o número de espectadores desta vez. Apenas uma mulher observava os lances compassados das mãos do mágico. Camile a considerou como uma plateia inteira, e não esmoreceu. Realizaram todos os números com aves, caixas, gaiolas, chapéus. Fim da noite. A espectadora solitária não bateu palmas. Elas não teriam força para chegar aos ouvidos do mágico. Ficaram apenas se olhando por largos e infindáveis minutos. Camile ficou de testemunha. Não teria mais emprego dali em diante. Aquele foi o último espetáculo. Fechadas as cortinas. O mágico agora provaria o chá amargo que cura e traz de volta os pés ao chão. Nada de magias de cartolas. Abriam-se agora as cortinas da realidade. A dois e para sempre.

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