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O salto do guepardo

Quitéria se despertou com o sol batendo nos lábios rachados e secos. O coração aos saltos a pôs de pé. O casal pedinte acordara antes. Estava fraca. Buscou as moedas no bolso e entrou na primeira padaria que viu. O dinheiro deu apenas para comprar um pão. Enquanto o mastigava a seco teve a certeza da cruel necessidade: voltar ao apartamento e não dormir mais uma noite sequer na rua. Era o único caminho. Não conhecia ninguém na metrópole. Era de fora. E fazer amizade duradoura e confiável da noite para o dia não seria possível. Depois do pão solitário, pediu copo de água de torneira, e tomou a calçada. O sol escaldante fazia apontar gotas e mais gotas na testa de Quitéria. Fez o caminho de volta do pouco que se lembrava da noite anterior, mas ao chegar ao cruzamento de quatro ruas mais adiante teve que engolir a timidez e perguntar pelo boteco de sinuca de pano sujo. Quem atendia era a dona Idalina. Depois de muitas perguntas para quem a deu atenção, já que muitos nem olharam para os seus olhos grandes e negros, Quitéria conseguiu avistar as cadeiras do Bar do Aroldo. Era assim o nome da birosca. Dali em diante, as ruas eram mais largas e solitárias, bem marcadas em seu mapa mental. Somente gastar a sola do sapato e ir adiante. Quitéria ainda não conseguira arquitetar nenhum plano mirabolante. Percorria a linha curta de ação-e-reação. Sair dos trilhos da obviedade cotidiana era complicado para ela. O que tinha em mente era voltar porque precisava de dinheiro, precisava se resguardar. Um passo depois do outro. A fumaça da cidade era interminável e sufocante. Queria andar depressa, mas não conseguia. Sentia uma fraqueza que apontava de dentro da alma. Ao mesmo tempo que fazia o caminho inverso, queria que o destino fosse outro. Tinha medo, muito medo. Instinto de preservação da própria vida. Daí, uma pontada a assaltou do umbigo à garganta. O calor indescritível outra vez. Os olhos do guepardo surgiram na sua frente. Bem pretos. Um homem que parecia ser comum, tranquilo, de convivência normal. Os primeiros dias foram tão sossegados, de faxina certeira, eficiente. Quitéria limpava todos os cantos do apartamento com um esmero invejável. Dedicava-se para merecer cada centavo do acerto do fim do dia. Sempre tudo normal, para depois desembocar num ralo irreconhecível. Cansada, encostou-se em um dos postes já apagados pelo sol quente e vencedor do início da manhã. Lembrou-se do banheiro com cheiro de eucalipto e das vassouradas. E das ordens insistentes dele, que não entendia o tamanho da impossibilidade de se limpar mais e mais. O banheiro sempre fora um templo de luz, brilho e perfume para as defecadas daquele homem.
Aos poucos, Quitéria ganha fôlego e se coloca no trajeto de volta ao apartamento. Queria organizar as ideias para saber enfrentá-lo, caso o encontrasse por lá. Mas a fumaça da cidade grande não dava trégua. Quitéria avança nos passos enquanto tenta pensar no futuro. O plano era simples: avançar. Talvez a duas ou três ruas do prédio, desistisse de tudo, mas até lá o plano era simples: avançar. Atravessou ruas, esperou semáforos esverdearem para pedestres, desviou de pessoas e de sacos de lixos amontoados nas calçadas, subiu e desceu degraus, tapou os olhos durante a poeira grande dos ônibus, andou mais e mais. Somou os sete ou dez quilômetros que fez no dia anterior anestesiada de terror e adrenalina. Respirava pela boca, cansada da metrópole, da noite anterior sobre o papelão, do pão seco da manhã, da água morna da torneira, das motocicletas agitadas, dentro e fora dela. Céu azul com um imenso sol escaldante. Quitéria queria um abrigo seguro, sua vida de volta. Longe daquela cidade estranha, cheia de gente que não olha nos olhos umas das outras e que fedem a compromissos intermináveis.
Faltavam três ruas para que ela encontrasse o prédio do maldito guepardo. Sentiu um solavanco no peito magro de costelas vivas. Mais uma vez o calor insuportável que partia do umbigo e terminava na garganta com um aperto inenarrável. Seus olhos se arregalaram instintivamente. Era o fim. Ou o começo. Pensava no dinheiro. Tinha que resgatar seus últimos pagamentos, quase intactos, para preservar a própria vida. Tinha que entrar em seu quarto. O plano final era sair da cidade grande, voltar para a cidade pequena. Sentir-se segura. Lá onde os galos cantam nas horas certas e onde as ruas cheiram a mato virgem. Queria o paraíso de volta. Quitéria o merecia. Era preciso avançar. Mas o medo do guepardo a assaltou a uma rua do prédio. Pensou na possibilidade de ele ter roubado seus pagamentos e queimado suas roupas. O sangue percorria gelado pelas têmporas. O estômago dava volta nas motocicletas. O coração parecia estacado no meio de suas costelas. A cada pensamento desordenado, os olhos arregalavam ainda mais. Tentou respirar fundo várias e várias vezes. A jaula do guepardo maldito bem ali, do outro lado da rua. Quitéria estava em beco sem saída, como aquele onde dormiu sobre o papelão encardido. Quitéria estava em uma sinuca de bico, como aquela de pano ensebado do Bar do Aroldo. Uma fogueira do umbigo à garganta.
Quitéria leva quarenta minutos até as ideias tomarem suas devidas funções em cada prateleira de angústia. Quer respirar ares de coragem como se viessem dos buracos da calçada. Atravessa a rua, sobe as escadas e se depara com o apartamento 511. Ela estica o braço para alcançar a maçaneta. Em um arranco, preciso, mudo e oco, abre a porta. Não vê ninguém. Procura pelos cantos dos quartos. Não há ninguém. A respiração volta a ter ares infectados de medo. Não encontra os olhos de guepardo em nenhum espelho. Ao retornar à sala. Escuta um ruído alto de lâmpada estourada. Sente o lado esquerdo das costas queimar como tocado por maçarico. Quer gritar, mas não consegue. A vista se turva. Os ouvidos escutam um zumbido infernal. Um gosto salobro percorre a língua. Cai. Quitéria ainda o vê de pé, com ares infectados de vilão invencível. Seus dentes são grandes em um sorriso medonho. Não era guepardo. Era hiena com um sorriso escancarado em meio ao deserto. Ela estava paralisada. Ele esperava. Até ter certeza.

*texto publicado na edição n° 1975 do Jornal Opção, de Goiânia. 

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