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Ela, a mais linda entre as estrelas

Ele esticou o braço o máximo que podia. Para entregar a rosa daquele dia. A eleita era perfeita. Toda vestida de prateado. Trazia o ventre enorme, bem redondo. Não estava assim nos últimos dias. Mostrava uma parte murcha, um lado desconsolado. Depois de dois ou três amanheceres, ela surgiu à noite toda divina. Cheia de si. Cheia de sabedoria. Plena de certeza que era a mais bonita. Mesmo entre tantas estrelas. A rosa cheirava o perfume do mais lindo jardim da terra. Branquinha. Suavezinha. Ele estava na ponta dos pés. Mãos ao alto. Rosa ao alto. Ela esboçava um olhinho triste. Impossível ter a rosa. Impossível o encontro das pequeninas mãos. Foram dormir com lágrimas nos cantos dos olhos. Mas sonharam um com outro. Juntos, bailando entre as estrelas. Rodopiando entre os cometas. Ela, cheia de si. Ele, cheio de rosas. Uma mais perfeita que a outra. O sonho durou até o amanhecer. *texto dedicado a Iolanda e Jonas.

Outono

Outono Outra estação Dias mornos Dias açucarados Ventos dobrados Cortam folhas Chá de hortelã Calmaria no mar E na esquina E no coração Trovão Foi-se com a chuva Terra seca com flores Chá de amores Amoras Maçãs Outras folhas Outra canção Outono Mais uma vez Outra estação.

A torre de Netuno

Largou os sapatos na soleira da porta e caminhou com os pés descalços. Frio cortante do chão. Era o momento de deixar as lembranças também na soleira e cair na cama até o dia seguinte. Mas antes, era preciso conferir o conteúdo da caixa de sapatos, sempre depositada secretamente debaixo da cama. Tudo estava em ordem. Todos os embrulhos pequenos hermeticamente fechados com voltas inúmeras em fio de barbante encardido. Contava todos os embrulhos todos os dias. Quinze ao todo. Há meses não desembrulhava nenhum deles. Enquanto observava os pacotes, passava a mão no lóbulo da orelha direita. Crosta de sangue e pus que latejava. O dia anterior trouxe sol e ventos mornos. Também uma pontada no tórax que reverberou por toda a semana. Quando a noite chegou com cheiro doce de árvore velha, já estava esgotada. O dia, de fato, fora uma ruína, uma torre destruída pelo raio poderoso de Netuno. Promessas e mais promessas foram proferidas diante do espelho. Nunca mais seria o que era, nunca mais usar...

Violeta, Julieta, Antonieta e Marieta

Violeta ajeita os grampos nos cabelos com as janelas ainda fechadas. Era maio e os ventos poderiam ainda trazer algum resfriado. Era muito cedo. Violeta tinha muitas rugas ao redor dos olhos. Ela aparentava mais idade do que tinha. Muita história havia corrido em suas veias desde que nasceu. Era rígida. Não se casou. Com o tempo, ficou cada vez mais seca, amarga e limpa, feito chá ruim revigorante. Sempre calculada. Violeta desce as escadas e encontra as irmãs mais novas. Não nasceu bonita. Nasceu exigente e de olhos arregalados. Tinha a pele estranhamente acinzentada, como se a morte já a tivesse espreitado e engolido. Não tinha paciência com as irmãs. Elas eram três e nenhuma se casou. Moravam todas juntas, como um enorme saco de damascos secos e amassados pela viagem. Azedos e incorruptíveis. Julieta tinha os quadris largos e não suportava Violeta, a flor roxa do mau presságio. Era como uma mãe má, egoísta e sugadora de sorrisos. Quando Violeta passou dois anos nos Países Bai...

Ódio, ora chumbo, ora algodão

Era dada a lua A ela Que se transfigurava Ora chumbo, ora algodão Por horas Pela terra Ora chuva, ora sol Alaranjada Era dada a chance A ela De mudar de cor De roupa a cada estação No estalo da trombeta Ela se foi Bem no meio da dança de salão Não cuidou das tias Não cuidou do pomar No azedume do maracujá Lembro-me dela Tão azul Ora algodão, ora nuvem Distante Foi dada A ela A visita ao beco onde dormira Na noite anterior.

Cachoeira do mantra

Caminhos tortuosos em meio a quase escuridão. Depois de vários erros e acertos chegaram ao campo de apicultura. Não seria interessante passar a noite ali. Mas voltar seria um trabalho imenso. A noite apontou antes do esperado e eles foram pegos de surpresa. Deveriam ainda percorrer muitos quilômetros até desembocar na casa velha da cachoeira. O tempo foi mal calculado. A areia da ampulheta escorregou rala. Estavam agora entre zumbidos de abelhas, que não dormem, nem conversam. Com as mochilas ainda intactas, pensam em acampar ou não. Tirando a clareira cheia de caixas de abelhas doces e furiosas, o resto era só estrada sem pouso, com mato empoeirado sem aconchego. Há uma hora atrás, eles haviam avistado uma pequena casa com chaminé ativa. Mas como estavam longe do destino, esticaram o passo. Agora o labirinto desembocava em uma clareira perigosa e desconfortável. Os ventos da noite de lua minguada sopravam baixo, com hálito gelado. Sem muitos agasalhos, não podiam pensar por tanto tem...

Fio da navalha - o último pão

No fio da navalha Cortou o último pão Dividiu entre os cães E os rostos vigilantes Pendurados na parede Tirou da sacola Uma armadura potente Vestimenta da noite Quando as pinturas adormecem As grades das janelas cercam Chão com farelos Céu estrelado Perfeito No fio da navalha Afia os pensamentos Fatia os dias Galões de adrenalina Garganta destilada É a navalha que dita Bote da serpente No fio da navalha Corta o último pão Traços riscados nas paredes As pinturas avisarão A hora do risco certeiro.