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Goiabeira

A goiabeira se esticou Inteira Perdeu as estribeiras Chorou Chuva das goiabas Cada uma no chão Galhos pontudos Dedos certeiros Em direção ao céu Goiabeira quer mel Felicidade de flor pequena Alva e iluminada Alvo branco noturno A goiabeira se esmerou Dia após dia Mas perdia cor Pedia luz E ela se foi Goiabeira apaixonada Chorou Agora é lua nova, disseram Goiabeira impaciente Encolheu-se.

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém ...

A máscara da girafa

Tinha os pés cansados como saídos de um atoleiro. A cabeça não comportava mais as ideias saltitantes. A mente agora pairava no ar. Queria descanso, conforto, comida, banho quente. Andar todos os dias entre um zilhão de gente. Gente distraída e desconfiada. Gente desgastada e indiferente. Gente que pipocava por todos os lados e feria como água quente. Um mundo inteiro a ser percorrido. Mas as ideias o cansavam. Daí, deletou todas, todas, todas. Tudo o que era novidade. Tudo o que cheirava a tinta fresca. Envergado pela derrota. Zerado. Cansara-se, como nunca antes. Sapatos furados já encharcados da chuva do dia anterior. A barba por fazer há meses. O odor de graxa que não saía das mãos. Mesmo depois de caminhar por dias e mais dias. As tardes ensolaradas não eram mais observadas. A vida perdia o vigor. O sol engolido por prédios enormes todo santo dia. Às vezes a bolota incandescente se resfriava na garoa e sumia feito fumaça magra atrás do arranha-céu. Observou tanto tempo a vida em si...

Ela, a mais linda entre as estrelas

Ele esticou o braço o máximo que podia. Para entregar a rosa daquele dia. A eleita era perfeita. Toda vestida de prateado. Trazia o ventre enorme, bem redondo. Não estava assim nos últimos dias. Mostrava uma parte murcha, um lado desconsolado. Depois de dois ou três amanheceres, ela surgiu à noite toda divina. Cheia de si. Cheia de sabedoria. Plena de certeza que era a mais bonita. Mesmo entre tantas estrelas. A rosa cheirava o perfume do mais lindo jardim da terra. Branquinha. Suavezinha. Ele estava na ponta dos pés. Mãos ao alto. Rosa ao alto. Ela esboçava um olhinho triste. Impossível ter a rosa. Impossível o encontro das pequeninas mãos. Foram dormir com lágrimas nos cantos dos olhos. Mas sonharam um com outro. Juntos, bailando entre as estrelas. Rodopiando entre os cometas. Ela, cheia de si. Ele, cheio de rosas. Uma mais perfeita que a outra. O sonho durou até o amanhecer. *texto dedicado a Iolanda e Jonas.

Outono

Outono Outra estação Dias mornos Dias açucarados Ventos dobrados Cortam folhas Chá de hortelã Calmaria no mar E na esquina E no coração Trovão Foi-se com a chuva Terra seca com flores Chá de amores Amoras Maçãs Outras folhas Outra canção Outono Mais uma vez Outra estação.

A torre de Netuno

Largou os sapatos na soleira da porta e caminhou com os pés descalços. Frio cortante do chão. Era o momento de deixar as lembranças também na soleira e cair na cama até o dia seguinte. Mas antes, era preciso conferir o conteúdo da caixa de sapatos, sempre depositada secretamente debaixo da cama. Tudo estava em ordem. Todos os embrulhos pequenos hermeticamente fechados com voltas inúmeras em fio de barbante encardido. Contava todos os embrulhos todos os dias. Quinze ao todo. Há meses não desembrulhava nenhum deles. Enquanto observava os pacotes, passava a mão no lóbulo da orelha direita. Crosta de sangue e pus que latejava. O dia anterior trouxe sol e ventos mornos. Também uma pontada no tórax que reverberou por toda a semana. Quando a noite chegou com cheiro doce de árvore velha, já estava esgotada. O dia, de fato, fora uma ruína, uma torre destruída pelo raio poderoso de Netuno. Promessas e mais promessas foram proferidas diante do espelho. Nunca mais seria o que era, nunca mais usar...

Violeta, Julieta, Antonieta e Marieta

Violeta ajeita os grampos nos cabelos com as janelas ainda fechadas. Era maio e os ventos poderiam ainda trazer algum resfriado. Era muito cedo. Violeta tinha muitas rugas ao redor dos olhos. Ela aparentava mais idade do que tinha. Muita história havia corrido em suas veias desde que nasceu. Era rígida. Não se casou. Com o tempo, ficou cada vez mais seca, amarga e limpa, feito chá ruim revigorante. Sempre calculada. Violeta desce as escadas e encontra as irmãs mais novas. Não nasceu bonita. Nasceu exigente e de olhos arregalados. Tinha a pele estranhamente acinzentada, como se a morte já a tivesse espreitado e engolido. Não tinha paciência com as irmãs. Elas eram três e nenhuma se casou. Moravam todas juntas, como um enorme saco de damascos secos e amassados pela viagem. Azedos e incorruptíveis. Julieta tinha os quadris largos e não suportava Violeta, a flor roxa do mau presságio. Era como uma mãe má, egoísta e sugadora de sorrisos. Quando Violeta passou dois anos nos Países Bai...