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O mal de Analice

Sentada na cadeira de uma sala vazia, Analice é o vício que se repete por não ter mais aonde ir. Foram-se todos. Todos em um dia de lua quarto crescente. Crescia em seu peito avencas enormes de dias abandonados. Avencas selvagens. Que nascem à toa e morrem em um dia sem testemunhas. Seus olhos estavam secos, como a boca e os órgãos do corpo inteiro. A porta bateu com força. Ela nem se moveu. Escutou passos em sua direção. Não olhou para trás. Não se interessou em quem poderia ser. Todos se foram em um dia de lua de quarto crescente. Estava só com os pés sobre o chão imundo e frio. Um cheiro de cigarro estacionou em suas narinas. Imaginou quem poderia ser. Cheiros sempre a apunhalavam o coração, abrindo arquivos emperrados de vinte anos ou mais. Cheiros eram deuses que desciam a terra, esfregando-lhe no nariz quadros com pinturas reconhecíveis. Pinturas aceitáveis de terra firme. Pinturas medonhas de mares impossíveis. Sentiu uma mão morna sobre seu ombro esquerdo. O tato não lhe trazi...

Depois do fim da tarde

Guardou todas as facas e cobriu a cabeça com o lençol. Medo de escutar outra vez o uivo misterioso do outro lado da rua, vindo de detrás de um enorme portão pintado de azul. Poderia ser um cão raivoso, decerto, mas o uivo tinha algo de humano, de dor, de desconsolo, de situação mal parida. Todos os dias esse medo lhe percorria a espinha e encontrava lugar em suas memórias do dia anterior. Uma pilha de memórias que se acumulava a cada dia, como papéis em uma repartição pública preguiçosa. Debaixo do lençol, imaginava como seria a criatura uivante, como seria sua pelagem e seus olhos. Assustadores os seus olhos debaixo do tecido de sua vergonhosa existência. Todos os dias tentava arrumar a casa e não conseguia. Todos os dias tentava comer regradamente e não conseguia. Todos os dias pensava no pior. Que o pior pudesse acontecer dali a poucos segundos. Que se ele não alinhasse todos os fios da faca na gaveta, o cão-humano uivaria sua pena, como a mais terrível do universo. Os uivos eram d...

Verão - presságio

Verão No calor das pedras As andorinhas que não se foram Nos buracos de seus ninhos Uma cidade inteira de carros E depressão Verão Todos os dias Folhas jovens e duras Lavadas em horas marcadas Perdidas, tão certas Esverdeadas Todos os dias Andorinhas Fazendo ninhos de impressão Pedras urbanas Testemunhas do tempo Que passou tão rápido Presságio Verão.

'Trecho III'

" (...) Os cabelos dela eram incríveis. Loiros e ondulados, reluzindo a luz do sol. Casca de carambola doce. Boca de lábios grossos que pediam atenção. Olhos pretos vívidos. Seu rosto pedia insistentemente uma puxada de cadeira e horas de conversa sobre o tudo ou sobre o nada. Porque vê-la falando e gesticulando com as mãos de dedos pontudos era um espetáculo mais atraente do que qualquer pôr-do-sol, do que qualquer barulho de cachoeira imensa, do que qualquer jogada fatal no fim do jogo de cartas. Corpulenta e açucarada. Perfumada de flor. Estava sozinha no balcão do bar pequeno na esquina da rua principal. De frente única azul e saia jeans um pouco acima do joelho. Seus joelhos eram morenos e redondos. Ele, de cabelos pretíssimos, sentiu que devia arriscar uma pergunta. Uma pergunta que servisse de ponte e a levasse para seu lago experiente, quase cinquentando. Quando o viu, grudou suas jabuticabas oculares nos olhos deles. Aproximou-se e perguntou o nome dela. Angélica. Combin...

Imaginário

Certo que era raro Pavão alaranjado Com grito de mata Perdida Por entre as folhas De um novo deserto Imaginário Com força que arranca Plantas de um vaso só Aproximam-se garças À luz do sol O pavão quer sossego Asas longas Bicadas suaves Que arranquem suas lágrimas.

Sapatos molhados

Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Acendeu um cigarro. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucur...

Cacos de ampulheta - breve texto sobre calos, decisões e memórias

O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua só la...