Guardou todas as facas e cobriu a cabeça com o lençol. Medo de escutar outra vez o uivo misterioso do outro lado da rua, vindo de detrás de um enorme portão pintado de azul. Poderia ser um cão raivoso, decerto, mas o uivo tinha algo de humano, de dor, de desconsolo, de situação mal parida. Todos os dias esse medo lhe percorria a espinha e encontrava lugar em suas memórias do dia anterior. Uma pilha de memórias que se acumulava a cada dia, como papéis em uma repartição pública preguiçosa. Debaixo do lençol, imaginava como seria a criatura uivante, como seria sua pelagem e seus olhos. Assustadores os seus olhos debaixo do tecido de sua vergonhosa existência. Todos os dias tentava arrumar a casa e não conseguia. Todos os dias tentava comer regradamente e não conseguia. Todos os dias pensava no pior. Que o pior pudesse acontecer dali a poucos segundos. Que se ele não alinhasse todos os fios da faca na gaveta, o cão-humano uivaria sua pena, como a mais terrível do universo. Os uivos eram d...