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Postagens

Sobre o agora, sem muita compostura

Ainda não enjoei do café Ainda não enjoei do perfume Chorei pela rotina Choro em todas as vésperas Não é tristeza É relógio emperrado Meu corpo não se encaixa Nas dobraduras da horas Como colocar pra fora O que se sente Passando pela goela Se angústia não tem garganta?

A vida futura de Celina

Sobre a cristaleira, ainda duas peças restantes. Venderia mais tarde sem pena do passado. Duas terrinas de porcelana rosa que nunca foram usadas não fariam falta agora que pensava em deixar a casa para o dono do farol. Aquele homem andava insistente e Celina estava velha e cansada demais para discussões. Pela manhã, a areia fina havia entrado pela porta da sala, deixando um rastro de vento desenhado sobre o solo. As vassouradas custaram a completar o serviço. Manter uma casa com oito grandes cômodos para se viver sozinha era um disparate para Celina. O forno não funcionava mais como antes. Percebera que acumulou panelas além da conta. Sua obsessão por panelas de todas as formas e tamanhos a fez encher as paredes da cozinha de ganchos intermináveis. Na última semana, conseguira vender dezesseis delas. O dinheiro não fora muito, mas a urgência da mudança, reforçada pelo velho do farol, empurrava Celina a cometer o inimaginável. As terrinas ficaram por último porque não achava comprador p...

Flores amarelas

Debruçados em meia parede de concreto, vemos lá embaixo flores amarelas como se fossem girassóis miúdos. Abelhas enormes as sobrevoam e, observando o pôr-do-sol no horizonte, falávamos de morte. A luz amarelada, acompanhada das flores vangoghianas, nos estalava vida diante de nossos narizes. Mas falávamos dos mortos. Lembrávamos dos mortos. Todos se vão sem levar um alfinete de suas gavetas. O sol nasce no dia seguinte a despeito dos mortos. Já é outono e tiramos aquela tarde para falar dos mortos, com o coração revirado e os olhos secos. Lembranças sem dramas. Porque não gostamos de chorar o inevitável. Na estação seguinte, as flores amarelas murcharão da noite para o dia. Parecem que são tocadas por forças malignas. Tornam-se galhos marrons retorcidos. As abelhas fogem. O verde à volta dos bambuzais dá adeus. As flores selvagens somem. Talvez apareçam meses depois. Mas durante a morte da estação, preferimos falar de vida, para compensar o calor morno das vísceras do sol. Os mortos p...

Trecho V

(...) No dia do embarque, Soraia tremia da cabeça aos pés. Trazia um aperto na nuca e uma fogueira na boca do estômago. Os pés flutuavam temerosamente na incerteza da volta pra casa. Até ali, o guepardo não a atacara. Havia sumido entre os canos de descarga da cidade. Talvez a espreitasse na rodoviária, disfarçado em alguma fila de guichê. Fábia prometeu que ficaria com ela até a entrada no ônibus. Olhava somente para frente, sem dizer uma palavra. A companheira também não puxou assunto, pensando no cochilo da tarde para se garantir na batalha noturna. Enfim, o velho ônibus de carcaça amarelada encostou-se à plataforma 12. Um abraço magro de despedida e sussurros de agradecimento, manhã amarga de decisões e medos. Fábia sentiu um aperto dentro do tórax e foi ficando pequenina na plataforma, o ônibus se afastava. Soraia manteve-se tensa durante a viagem inteira. Salva do salto do guepardo, que seria um fantasma dali pra frente, cravado em memórias aterrorizantes, mas que teria que per...

No vagão

Sentada em um dos bancos surrados do trem que parte do subúrbio para o centro de Paris, observo pessoas como se fossem pinturas admiráveis, mesmo que não tenham nada de extraordinário. A senhora que viaja bem à minha frente olha  a paisagem pelo vidro da janela, perdida em seus pensamentos. É muito raro alguém te olhar nos olhos quando se viaja por essas terras. Estão todos absortos, flutuantes, em seu cotidiano mesmicento. Eu noto todos e me fixo no olhar deles. A tal senhora que viaja diante de mim tem roupas escuras, mesclando preto com marrom. Do seu lado direito, percebo uma sacola pequena de papel com um pão. A ponta do pão aparece do lado de  fora, presenciando o ar fechado de multidão misturada. Suas mãos estão ressecadas. Seus cabelos, com alguns fios brancos, estão opacos. Seu rosto, sem maquiagem, tem traços fortes. Em momento algum ela olhou para mim. Mirava os telhados do lado de fora. Corriam um depois do outro, enquanto sentíamos dentro do vagão o seu trota...