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O embrulhinho

  Na Rua das Goiabeiras, ele quase enfartou ao colocar a mão no bolso da camisa e perceber que o embrulhinho não estava lá. Que suadouro. Fez o trajeto de volta até chegar em casa e com a face branca começou a revirar as primeiras gavetas da cômoda. A mulher não podia pegá-lo ali, todo sôfrego, a fuçar em toalhas alvas dobradas. Fechou as gavetas. Abriu-as outra vez na esperança da olhadela mal dada. Perda de tempo. Apalpou o bolso já por instinto. O embrulhinho não estava lá. Caiu na rua, decerto. Saiu correndo, triplicando o suor colado no corpo. Andou como cão farejador que não levanta os cílios. Percorreu tudo, até parar em frente outra vez diante da palmeira da Rua das Goiabeiras, onde tudo começou. Nada na calçada. Nada.    Foi para o trabalho mesmo assim. Talvez tivesse deixado-o sobre a mesa. Foi consolando-se com mentiras de algodão-doce, até sentar-se diante da máquina de escrever e constatar que o embrulhinho sumira de fato. Datilografou tudo errado naq...

Quatro impressões ou sobre como as estações estão dentro de nós

Primavera Sobre as flores Diremos As favoritas Sobre as flores colocaremos Nossas mãos Malditas Lembraremos os mortos Sorrisos Festas Despedidas Ventos quentes anunciadores Abelhas aos montes Sobre as flores Faremos coroas De diversas interpretações Amarelas, brancas Rosas, bem rosas Mais abelhas Dirão Flores O que há além. Verão Verão No calor das pedras As andorinhas que não se foram Nos buracos de seus ninhos Uma cidade inteira de carros E depressão Verão Todos os dias Folhas jovens e duras Lavadas em horas marcadas Perdidas, tão certas Esverdeadas Todos os dias Andorinhas Fazendo ninhos de impressão Pedras urbanas Testemunhas do tempo Que passou tão rápido Presságio Verão. Outono Outono Outra estação Dias mornos Dias açucarados Ventos dobrados Cortam folhas Chá de hortelã Calmaria no mar E na esquina E no coração Trovão Foi-se com a chuva Terra seca com flores Chá de amores Amoras Maçãs Outras folhas Outra canção Ou...

Olhos de ontem, doutor

"Meus olhos são os de ontem, doutor", disse a senhora ao médico, com a bolsa surrada de courvim preto agarrada ao ombro direito. Reclamava das noites mal dormidas, nada dormidas, enquanto o marido sofria de febre altíssima inexplicável. Queria remédios para ele. "Ele está bebendo muita água?", perguntou o doutor. "Água gelada, leite gelado... ele diz que parece ter uma fogueira ardendo dentro dele. Um desespero, doutor". A voz da senhora era firme e clara. Deveria rezar terço da primeira até a última bolota sem esmorecer no tom da reza. Muito firme a senhorinha. "Se não tiver algum remédio, não tem problema, doutor. Eu peço dinheiro emprestado para minha patroa, para a dona Cecília, dona Cidinha, dona Sebastiana. Peço para as pessoas da minha rua. Se não tiver, não tem problema, eu me arranjo", discursou pesarosa, vestindo sua blusa florida, duas medidas acima de seu tronco encolhido, e saia preta de todas as ocasiões. Como a intimidade sobre o...

O ano novo de Adélia

Há quem frite pedaços de fígado. Há quem frite coraçõezinhos. Há quem frite a pele. Adélia frita um ovo na tarde de verão. Meio-dia já se foi no relógio e muita coisa ficará em sua memória nos próximos dias. Neste fim de ano, ela torce para que o próximo ano seja melhor. É o que afirma todo mês de dezembro desde que entrara na fase adulta. Tem sensações de estar fazendo as coisas de forma errada o tempo todo. O telefone nunca toca com notícias de fogos de artifício. Seus dias andam com sabor de soro fisiológico de geladeira. Não admite que seu sabor seja o mesmo das lágrimas. Mas também não lembra o mar. Os oceanos foram feitos de lágrimas de Deus. Em janeiro, usará as mesmas roupas e comerá mamão de fim de feira toda vez que der as três da tarde. Isso se ficar em casa e não arrumar um emprego. Para o próximo ano, ela promete aceitar oportunidades que antes não imaginara, por respeito aos diplomas conquistados até então. Bobagem. A grana é necessária e necessidades são sempre urgentes...

A delicada Sinomara

Parecia não ser muito prudente pendurar o barulhento mensageiro dos ventos logo ali, na porta de entrada. Era grande e ruidoso e não faltaria quem reclamasse do tilintar repetitivo. Não se pode fazer tudo de acordo com o que se deseja. Há o outro. Há a Amália, o José, a Haydée, o Felipino, a Úrsula, a Vitória, a Sebastiana, o Irineu. Há também o Eulálio que mora na casa dos fundos. E há muitos cachorros que podem desandar no latido da madrugada, incentivados pelos cilindros de metal. Há quem não goste, há quem goste mais ou menos, há os indiferentes. Mas sempre há. Os que não gostam de nada estão a postos com suas caras de marmelada amarga. Na manhã de sol ameno e vento franco, Sinomara arrancou o mensageiro dos ventos da porta de entrada. Durara apenas uma noite ali. Os cães não desandaram em latidos na madrugada, nem os vizinhos mais próximos, como a Sebastiana e o Irineu, reclamaram. Tampouco os de dentro de sua própria casa, como Felipino e Úrsula. Sinomara não dormira bem, preoc...

A cigana

Até as próximas badaladas do relógio, empesteado de restos de pombos, da catedral metropolitana, Mariano não sairá de detrás da pilastra da obra abandonada ao lado mercado do Rui. Jurara ter visto um fantasma às três horas da tarde, passando em frente à catedral. Era uma mulher, de ares ciganos, saia longa rosa e cabelos negros compridos. Não conseguiu ver seu rosto. Na verdade, no lugar do rosto havia uma névoa. Não viu seus olhos, nem seus dentes provavelmente dourados. Viu um borrão que se alastrava em sua face. Mais nada. Quando deram as três e meia no relógio, Mariano, que ainda não estava atrás da pilastra da obra abandonada, a viu outra vez, atravessando a rua, rumo à praça do chafariz grande. Depois dela, passaram dois caminhões, lotados de árvores velhas cortadas. Mariano ficou confuso e a perdeu de vista. O semblante embaçado era o mesmo de antes. De costas, viu a cabeleira até a cintura se mover com o vento morno do meio da tarde, mas quando conseguiu mirá-la de frente, era ...